Publicado em 03 de novembro, 2019 as 08h16.

Você é um exemplo a seguir?

Por Rodrigo Vargas de Souza.

Semáforo de pedestres
Foto: Pixabay.com

Hoje venho falar sobre algo que já mencionei em outro artigoconstrangimento. Gosto de falar nas minhas palestras que no trânsito exite algo que eu chamo de Efeito Gramado, que é a facilidade com que nos sentimos constrangidos por deixar fazer algo quando todos estão fazendo. No entanto, esse sentimento também pode surgir em situações opostas, ou seja, quando fazemos aquilo que todos (ou quase todos) também fariam.

CONSTRANGIMENTO:
  1. Situação moralmente desconfortável, vexatória; vergonha, vexame, embaraço.

  2. Timidez diante de outras pessoas; acanhamento, encabulamento, vergonha.

  3. Fato, situação, atitude desagradável e embaraçosa; aborrecimento, incômodo, embaraço.

Na dúvida do que estava sentido naquele momento, fui buscar algumas definições. E, diante do exposto acima, sim, foi muito constrangedor passar pelo que passei naquela manhã, de treinamento na empresa. Periodicamente, os agentes de trânsito de Porto Alegre passam pelo que chamamos de “TAP” (Terças de Aperfeiçoamento Profissional), onde geralmente são abordados temas como legislação, atualização de procedimentos, abordagem segura, etc.

Porém, naquela manhã, aprenderia algo de forma bem menos formal. Mas, nem por isso, menos intensa. Estávamos em um grupo de 40, talvez 50 agentes. Aguardávamos o horário de início do curso em meio a conversas descontraídas, seja de colegas que trabalham juntos diariamente, seja daqueles que não se viam há anos. Eis que, dentre os diversos colegas que chegavam a todo o momento, um vem na minha direção e, ao me cumprimentar, exclama:

Mas que vergonha, hein! Logo tu, que trabalha na educação, atravessando no sinal vermelho?!

Instantaneamente, como em um filme antigo em VHS sendo rebobinado, comecei a traçar na minha mente o caminho inverso ao que havia percorrido da parada de ônibus até o auditório em que me encontrava, chegando à travessia de pedestres junto ao corredor de ônibus. Faltavam uns 10 minutos para as 8 horas da manhã. Além de mim e algumas outras duas ou três pessoas que deviam provavelmente estar indo para seus serviços, mais uma dúzia de jovens encaminhavam-se para a escola que ficava exatamente do outro lado da rua. Como o fluxo de veículos àquela hora era bem intenso, aquela pequena multidão começou a se aglomerar rente ao meio fio, esperando uma oportunidade de atravessar.

Até que a mudança semafórica do cruzamento anterior, há uns 50 metros de onde estávamos, fez surgir um intervalo no fluxo de veículos. E, assim como nesse outro artigo, mesmo com o sinal para pedestres fechado, iniciei a travessia. Entretanto, diferentemente da situação citada no artigo acima, nessa oportunidade eu não estava sozinho na rua e o fluxo já era intenso. E, embora não tenha olhado para trás, percebi que outras pessoas atravessaram atrás de mim, tanto pelo som dos passos, quanto pela buzina do carro que se aproximava. Obviamente que os xingamentos de alguns jovens que atravessavam logo atrás em resposta à buzina do condutor que se aproximava ajudaram nessa minha conclusão.

Felizmente concluímos a travessia em segurança, ainda que de forma imprudente. Mas, e se a situação não tivesse sido assim? Tão logo a cena terminou na minha memória, começou a retroceder novamente. E, ao estilo Efeito Borboleta, comecei a imaginar alguns outros finais possíveis para essa história.

Final 1: E se eu tivesse esperado o sinal verde?

Nada garante que aquelas pessoas não teriam atravessado, mesmo que eu não tivesse iniciado a travessia. Embora, se esse fosse o caso, muito provavelmente o constrangimento seria de quem atravessou, não meu.

Final 2: E se ao invés de jovens fosse um idoso?

Como também mencionado no artigo acima, Porto Alegre é a capital do idoso e é evidente a diferença entre um jovem e um idoso no que diz respeito tanto à percepção visual e auditiva, quanto ao tempo de resposta e ao tempo necessário para uma travessia.

Final 3: E se eu tivesse conseguido atravessar, mas os jovens atrás de mim não?

Certamente esse seria o pior desfecho possível. Conviver com a ideia de que aqueles jovens só iniciaram a travessia porque eu também havia feito seria algo extremamente doloroso. Pensar que, no lugar dos xingamentos para a buzina do condutor, poderia ter ouvido o som da frenagem do veículo e o estrondo dos corpos daqueles jovens chocando-se contra a lataria do carro me deixou aterrorizado. O constrangimento diante daquele auditório repleto de colegas passou depois de alguns minutos. Mas a culpa, provavelmente, eu levaria comigo para o resto da vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *