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Aprendizagem e treinamento reduzem acidentes


Por Mariana Czerwonka Publicado 10/11/2015 às 02h00 Atualizado 08/11/2022 às 22h42
 Tempo de leitura estimado: 00:00

*Dr. Dirceu Rodrigues Alves

Redução de acidentesEntender o funcionamento do veículo, as forças físicas atuantes, a educação preventiva, defensiva, as situações de risco, as condições meteorológicas e adversidades, a atividade diurna e noturna, a via urbana e estrada são algumas das necessidades básicas para a concessão da Carteira Nacional de Habilitação. Não se pode esquecer que, como toda atividade, é necessário a educação continuada, correção dos vícios adquiridos, atualização com relação a legislação, a sinalização e outros. Situações de risco, precisam ser vivenciadas, colocadas na prática tanto no  treinamento inicial como na educação continuada.

Veja que até a legislação, desconhecendo as leis da física, permite situações extremamente perigosas e parece não preocupar-se com condições de trabalho, de transporte de usuários e até com a concessão da Carteira Nacional de Habilitação.

Exemplo típico é a posição de trabalho de cobradores de ônibus, que ficam posicionados no sentido transverso à direção do veículo o que é totalmente contra indicado do ponto de vista ergonômico. Não só a do cobrador, mas aqueles veículos que possuem bancos ou poltronas laterais para passageiros.

O motivo da contra indicação baseia-se na falta de controle do centro de gravidade de quem viaja sentado nesses bancos, sofrendo as ações da aceleração e desaceleração que o obrigam a fazer durante todo o percurso movimentos pendulares da coluna lombar e movimentos ativos de membros superiores e inferiores buscando o equilíbrio necessário para manter-se em posição. Também, pelo fato de ter um campo visual restrito, com pouca visão de profundidade, com imagens passando rapidamente na janela contra lateral, o que, somado às condições já descritas, induzem mais rapidamente o trabalhador ou usuário a um estado hipnótico, com torpor e sonolência. As imagens passando em seu campo visual é como se tivesse um pendulo a sua frente levando-o a um estado hipnótico.

O banco colocado no sentido da direção do veículo trás transtorno à saúde

Somando-se os movimentos repetidos de procura ao centro de equilíbrio e a vibração de corpo inteiro, temos como entender que tudo isso leva ao esgotamento muscular e dependendo do tempo de exposição, a fadiga será o sintoma predominante.

Não só as alterações ergonômicas do deslocamento nesta posição preocupam, mas também a total falta de proteção em termos de segurança. Uma frenagem brusca ou mesmo uma colisão, produzirá traumatismo de arcos costais, de membros superiores e inferiores, além de outras consequências imprevisíveis.

Nessas condições são comuns os seguintes sintomas:

– náuseas

– tonteiras

– vômitos

 – vertigem

– fadiga visual

– visão borrada                                                                                        

– dor muscular

– dor lombar

Decretos, Leis, Resoluções também são responsáveis por acidentes de trânsito     

O transporte de pessoas de pé, tanto na via urbana como na estrada, é outra permissão inadequada.

A aceleração ou desaceleração brusca faz com que o indivíduo sentado ou de pé no veículo tenha seus órgãos deslocados para trás ou para frente, dependendo de uma ou de outra condição, com um peso proporcional a velocidade do veículo. Caso o veículo esteja a 100 km / h, na desaceleração brusca por frenagem ou colisão, o indivíduo no interior desse veículo será deslocado do seu assento ou da sua posição de pé a 100 km / h, isto é, na velocidade em que estava o veículo antes da frenagem ou colisão.

Assim por exemplo, se estamos a 100 km / h e o peso do motorista, cobrador ou usuário sejam de 70 kg, numa desaceleração brusca, esse peso será multiplicado e o peso final estará muitas vezes acima do peso inicial (20 vezes maior). Imagine o impacto dessa massa com uma superfície sólida. Não há dúvida que teremos um politraumatizado com lesões gravíssimas. É por isso que o perito, sabendo a velocidade do veículo no momento do impacto, pode estimar os danos provocados nas vítimas.

Estamos tão somente destacando pequenas coisas desconhecidas para a grande massa de motoristas e que estão atreladas a gravidade dos acidentes.

Esse não é um ensinamento comum nas autoescolas, mas é necessário que todos tenham conhecimento que uma pessoa dentro de um veículo fica susceptível ao que chamamos de “Cinemática do Trauma”. Se esses conhecimentos fossem passados a quem busca a habilitação para direção veicular ou mesmo numa educação continuada, acredito que a ciência física daria subsídios importantes para maior segurança na direção veicular.

Ninguém imagina porque as colisões causam tantas lesões, mas com o conhecimento da cinemática do trauma tudo é elucidado.

Observe no quadro a baixo quanto passa a pesar uma víscera numa desaceleração por frenagem brusca ou colisão.

Órgão      Peso em repouso     Peso no momento da desaceleração brusca a 100 km/h

Fígado           1,700 kg                   47 kg

Coração        0,300 kg                     8 kg

Rim                0,300 kg                     8 kg

Cérebro         1,5 kg                       42 kg

Baço              0,150 kg                     4 kg


Precisamos mais cautela, conhecer profundamente todas as situações de risco da máquina sobre rodas.
Não é necessário delongar para entender que o aumento considerável do peso dos órgãos internos pode provocar rupturas com hemorragias internas, arrancamentos, deslocamentos, etc., com exagerado aumento da gravidade do quadro. Muitas vezes sem lesão externa ao corpo.

Se dentro de uma fábrica, com máquinas fixas, a legislação e as normas regulamentadoras do trabalho determinam que se zele pela segurança do operador, seja fornecido equipamento de segurança, haja treinamento frequente e ainda se agregue à máquina sensores para desligá-la em situação de risco, porque não darmos a mesma atenção ao operador de máquina sobre rodas? Esta é a mais perigosa, transporta e circula entre pessoas.

Espera-se sempre maior treinamento para as situações de risco, em atividade diurna, noturna, com chuva, neblina, e outras condições anormais, na via urbana e na rodovia. Ter pleno conhecimento da utilização do freio comum e ABS e estar conectado permanentemente à direção preventiva e defensiva.

É necessário ampliarmos conhecimentos sobre os riscos inerentes à atividade sobre rodas. O recebimento hoje da Carteira Nacional de Habilitação não significa que estamos habilitados para a atividade veicular. Este documento nos libera para o treinamento e aprendizagem individual, independente de acompanhamento e orientação, o que é absurdo. É infelizmente, nessas circunstâncias que vamos enfrentar as situações de risco, com total desconhecimento. Daí surge à maior parcela das nossas estatísticas de acidentes de trânsito.

De posse dessa CNH sabemos apenas fazer o veículo andar e continuamos totalmente despreparados para as situações de risco que surgirão no dia a dia.

Conclusão:

Precisamos de mudança radical na formação de nossos condutores. Educar, conscientizar para os riscos, identificar o veículo não para atividade radical, mas sim para a mobilidade segura, respeitando as regras de trânsito, os parceiros e a cidadania. Conscientizando-se de que a máquina sobre rodas é extremamente perigosa e além de tudo compromete a saúde e o meio ambiente.

A Carteira Nacional de Habilitação é uma concessão do estado, como tal, pode ser caçada diante de comportamento inadequado do condutor. Precisamos treinamento e educação continuada para conhecer mais, muito mais do que é ensinado nos Cursos de Formação de Condutores.

*Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior é Diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da ABRAMET – Associação Brasileira de Medicina de Tráfego  www.abramet.com.br

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