Publicado em 24 de maio, 2019 as 15h17.

Bolsonaro justifica que radares não são necessários porque apenas otários entram em curvas em alta velocidade

Por Mariana Czerwonka.

Curva velocidade
De acordo com dados divulgados pelo Conselho Federal de Medicina, o trânsito mata cinco pessoas e manda para o hospital 20 pacientes a cada hora no Brasil. Foto: Arquivo Tecnodata.

Mais uma live do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Mais uma vez ele reforça o posicionamento de ser contra os equipamentos de fiscalização eletrônica. Mais uma vez ele fez questão de confirmar a solicitação de engavetar o pedido de oito mil novos radares em rodovias federais. Nenhuma novidade.

O que chamou a atenção dessa vez foi a justificativa usada pelo Presidente. De acordo com Bolsonaro, ninguém é “otário” de entrar em uma curva em alta velocidade. “Não tem novos pardais em estradas federais. Teve uma pressão de uns pequenos grupos, ai e em local, de risco? Não, não tem local de risco. Ninguém é otário. Tem uma curva na frente, uma ribanceira, o cara entrar a 80, 90, 100 km por hora. Não é otário, não faz isso aí. Não precisa ter um pardal para multar o cara lá”, afirmou o presidente ignorando as estatísticas que mostram exatamente o contrário.

De acordo com dados divulgados pelo Conselho Federal de Medicina, o trânsito mata cinco pessoas e manda para o hospital 20 pacientes a cada hora no Brasil. Ao todo mais de 1,6 milhão de pessoas ficaram feridas em dez anos ao custo de R$ 3 bilhões ao SUS (Sistema Único de Saúde) e 438 mil pessoas morreram no período.

Para Jocelaine Mallmann, que é instrutora de trânsito em Porto Alegre, quem tem comprometimento em manter vidas no trânsito não pode aceitar tais atitudes.

“Se existe limites, e mesmo assim 5 mortos por hora. Imaginem sem limites. O pardal, o fiscal, sinalizadores eletrônicos se fazem necessários porque o homem não conhece limite. Estamos em uma época de descumprimento das leis. Cada um faz o que bem entende. Se não afetasse VIDAS tudo bem, mas a VIDA precisa ser protegida. Quando a perdemos não adianta tentar rebobinar”, argumenta.

Diversos especialistas já se manifestaram contra tal medida.  Foi o caso de Mércia Gomes, que é advogada especialista em legislação de trânsito. Em texto escrito no Portal do Trânsito, ela afirmou que números divulgados por órgãos fiscalizadores, mostram a diminuição de acidentes e mortes após o uso do sistema de fiscalização eletrônica.

“Como especialista na área, observo que o presidente Bolsonaro faz declarações populistas sem o menor amparo técnico, estudo especifico, deixando todos os profissionais temerosos, porque, provavelmente, a quantidade de acidentes vai aumentar. Quando falamos de um fluxo de via rápida, como é o caso de uma rodovia, quanto maior a velocidade, os acidentes tendem a ser cada vez mais frequentes e graves. A consequência disso são vidas perdidas”, analisa a advogada.

Para Márcia Pontes, especialista em direito de trânsito, que trabalha com condutas preventivas nesse ambiente, disse em entrevista ao Portal do Trânsito que essa declaração deve ser repensada urgentemente. “A gente sabe que os redutores de velocidade, são fundamentais principalmente em trechos críticos de rodovias e até dentro das cidades, onde motoristas abusam da velocidade. Quanto maior a velocidade, maior a gravidade das lesões, maior a ocorrência de óbitos”, aponta.

Excesso de velocidade

Um dos problemas mais graves no trânsito brasileiro é o excesso de velocidade. Essa é a causa de uma em cada três mortes por acidentes de trânsito em todo mundo.

“A velocidade inadequada reduz o tempo disponível para uma reação eficiente em caso de perigo. Em alta velocidade, muitas vezes não há tempo suficiente para evitar um acidente”, explica Celso Mariano, especialista e diretor do Portal.

Uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) atrela a fiscalização eletrônica à redução de 60% de óbitos e 30% de acidentes no trânsito.

A Organização Mundial de Saúde também recomenda no mundo todo o uso de medidores eletrônicos de velocidade como alternativa para a prevenção de acidentes de trânsito e redução da gravidade, no caso da ocorrência do evento.

Para Mariano, a segurança, no trânsito, está atrelada a fiscalização.

“A expressão ‘indústria da multa´ reforça uma grave distorção que existe na compreensão deste assunto, que tem sido combatida, há décadas, com muita dificuldade, pelos especialistas na área: a crença de que fiscalização é ruim. É preciso separa o joio do trigo: fiscalização feita sob intenções arrecadatórios, sem critérios técnicos, é que é ruim. Nesta hora é fundamental lembrar que segurança é um direito do cidadão que, justamente, é protegido pela fiscalização. E é obrigação do estado garantir este ambiente seguro no trânsito. Não vai ser desligando todo o aparato de fiscalização de velocidade que garantirá isso. Mas rever o que está mal feito, otimizar os recursos disponíveis, eliminar distorções, é sim importantíssimo. É o que esperamos que aconteça”, fundamenta Mariano.

6 respostas para “Bolsonaro justifica que radares não são necessários porque apenas otários entram em curvas em alta velocidade”

  1. Efigenio Placedino da Mata disse:

    Eu não usaria o termo otário , mas usaria o inconsequente , irresponsável .
    Mesmo com todos esta quantidade exorbitante de radares que temos no trânsito urbano , a quantidade de acidentes são grandes.
    Infelismente não se investe na educação dos futuros condutores.
    Eu fico a pensar : porque não colocar o trânsito como matéria escolar deste o primeiro ano escolar ??
    Eu creio que se assim for feito , no futuro teremos os melhores e mais uducados motoristas do mundo.
    Mostrando aos pequeninos as consequências de atos impensados ao volante.
    Efigenio da mata
    Guarda de trânsito a 23 anos da Guarda Municipal da cidade do Rio de Janeiro capital.

  2. Sergio N Watanabe disse:

    É triste ter um presidente que se comporta de forma irracional com limites intelectuais a flor da pele. Ele fala sem pensar ofendendo pessoas muitas vezes sem a intensão como acabei de ver a nova frase ” se a reforma for de japonês Guedes vai embora” pois é nós descendentes dos japoneses estamos cansados de piadas genéricas a essa mas sabemos que muitas delas vem de pessoas com falta de bom senso e que não fala por má intensão porque acha que é uma brincadeira aceitável como a do presidente sem noção. Vejo com muita preocupação quando ele chame de otário a quem entra em uma curva com alta velocidade comparando isso a industria da multa. Ele se esquece de que temos brasileiros como ele, que faz ou fala coisas erradas como estivessem certas e muitas delas acham que podem entrar em uma curva em alta velocidade pois a via demarca certa velocidade e que em curvas por bom senso do motorista deve diminuir mas este não usa a direção defensiva e não irá reduzir a velocidade causando acidentes gravíssimos envolvendo outros que nada tem a ver com essa falta de prudência. Ser honesto e ético é obrigação e só isso não basta para se governar um país, é preciso ter muito bom senso e respeitar as instituições, governar para seus eleitores e a sua oposição mas creio que com este presidente o trânsito irá piorar de vez. Vamos aguardar os próximos capítulos.

  3. Claudio disse:

    Tirar os radares? Ok

    Seria o mesmo que tirar também o limite de velocidade!

    A QUESTÃO É NA RODOVIA DIVIDIR ESPAÇO COM UMA CARRETA DE 45 TONELADAS EM IGUAL VELOCIDADE!

    A solução??? Tirar/reduzir em 50% os pedágios da anhanguera, MANTER RADARES A CADA KM.

    E deixar a Bandeirantes exclusivamente para automóveis em velocidade entre 120/240 km/h…com pedágios ao dobro do valor!

    Caminhões e carretas???… Transporte de carga e passageiros é por ferrovia!

  4. Davi disse:

    Se radar resolvesse, não morreriam tantas pessoas no trânsito. Radar é só para arrecadar, existem mecanismos eficazes para a redução de velocidade. Se consultaram especialistas e engenheiros competentes, resolverão o problema.

  5. Jorge Luis Consminski Lucas disse:

    Boa tarde. Decretamos o combate nas redes sociais do que chamamos de “Flexibilização das Condutas de Risco”. O governo executivo precisa compreender que questões complexas como as que são aplicadas no Trânsito, não podem ser frutos de um ponto de vista ideológico. Trânsito, de forma específica, se trata com requisitos técnicos, estudos científicos e análise estatística. A cultura da “Indústria da Multa” não pode servir de referência para esse debate, tendo em vista que não podemos colocar em cheque a idoneidade dos profissionais de fiscalização de trânsito. Precisamos compreender que os órgãos componentes do SNT não podem adotar a postura de reféns e simplesmente acatar a “vontade presidenciável”. Trânsito não pode ser tratado de forma tão simplista e irresponsável e as Autoridades de Trânsito não podem se calar frente a uma proposta de desmonte de políticas públicas de Segurança no Trânsito que são fruto de muita pesquisa, estudo e debates envolvendo profissionais e entidades voltadas para a redução de acidentes e melhor qualificação dos usuários das vias de uma forma geral. Mobilização Total contra a “Flexibilização das Condutas de Risco” no Trânsito.
    #souafavordospardais

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