Publicado em 27 de setembro, 2016 as 15h13.

Tentações da boa estrada

Por Celso Mariano.

Boas estradasA falta de respeitos às regras foram, mais uma vez, o destaque em nossas estradas e rodovias na semana da Pátria. Ultrapassagens perigosas e excesso de velocidade, predominaram. Estamos na Década de Ações pela Segurança no Trânsito, esforço mundial capitaneado pela OMS desde 2011 e, mesmo assim, continuamos piorando nossa posição neste ranking vergonhoso: éramos o quinto mais violento. Hoje estamos em quarto lugar.

Quando olhamos para o que acontece em nossas vias rurais (estradas e rodovias), facilmente se constatam pistas de rolamento sem o devido isolamento das passagens para pedestres e interseções com vias de menor porte. Faltam viadutos, contornos, anéis viários, passarelas, etc. Já escrevi sobre isso aqui no Portal.

Estradas esburacadas, antes da onda de privatizações de nossas vias rurais, eram tidas como culpadas principais desta violência. As rodovias pedagiadas, em boas condições, resolveram os buracos, falta de sinalização e providenciaram uma série de melhorias. Mas o que aconteceu, que os acidentes, que não pararam de acontecer? A quantidade diminuiu, mas a violência aumentou.

Com buracos, por ter dó do carro, você não corre. Com baixa velocidade, tem menos daquela energia que torce, esmaga e arranca pedaços dos veículos e das pessoas. Com acostamento ruim, cheio de imperfeições, obstáculos e em grande desnível, você não ousa sair da pista de rolamento. Com falta de demarcações no piso, você se sente inseguro, “às escuras”, sem certeza dos limites entre as faixas de rolamento e da própria estrada. Rodovia ruim te desanima de viajar à noite ou com chuva. Dá muito trabalho e é muito cansativo.

Comportamentos do tipo manter-se na sua pista, não invadir o acostamento, maneirar na velocidade, evitar de viajar à noite e com chuva, une dois mundo aparentemente “nada a ver”: aquele gerado pela má estrutura e aquele recomendado pela segurança. É que o comportamento adotado quando as condições da viagem são ruins, coincidem com o comportamento recomendado pelo bom senso e Direção Defensiva/Segura.

Facilmente poderíamos deduzir que estradas esburacadas, por gerarem acidentes menos graves, são mais seguras e desejáveis do que as bem estruturadas. Não. Não é isso. Seria como admitir que é melhor cortar o acesso à internet, já que ela tem servido para bandidos, pedófilos e sociopatas de toda ordem.

Embora facilmente se verifique que a quantidade de acidentes é menor nas rodovias em bom estado, a violência dos que ocorrem tendem a ser bem maiores. O que precisamos é obter o comportamento típico da estrada ruim, na estrada boa. Simples.

É simples, mas não é fácil, já que, para isso, é preciso mudar o comportamento das pessoas. E mudar comportamento implica em mudar cultura. Mudar cultura exige muita força bruta, tipo um agente de trânsito a cada quilômetro, ou, melhor, mais barato, inteligente e eficaz: educar. Mas isso é assunto para outro post.

Em estrada boa, o sujeito corre mais, afinal não tem buracos. É só curtir as delícias da velocidade sobre o tapetão preto. Com pista lindinha, toda demarcada, cheinha de catadióptricos (olhos de gato) reluzentes no chão, é até romântico viajar à noite. E se o acostamento é tão bom quanto a pista, por que não dar uma passadinha por ali? Até uma ultrapassagem dá vontade de fazer!

E por aí vai. Se dá pra extrapolar os limites, queremos mais é aproveitar! Não resistimos a estas tentações da estrada boa. E adeus segurança! Isso explica porque os acidentes continuam acontecendo. Pior: como envolve mais fatores de risco (velocidade, noite, etc), os acidentes são mais graves.

Nosso ímpeto de ir aos limites faz parte da vida da maioria de nós. Bem por isso não conseguimos poupar ou nos estruturarmos para a nossa velhice, por exemplo. Queremos sempre usufruir ao máximo das possibilidades disponíveis, sem preocupações nem com o futuro distante – uma boa aposentadoria – nem com o momento seguinte – algum irresponsável, como nós, ultrapassando sem visibilidade.

Falei sobre isso com o jornalista Adilson Arantes, na Radio Difusora de Curitiba, no última dia 12 de setembro. Na ocasião, era apresentado um balanço da Operação Independência, da PRF.