Publicado em 28 de dezembro, 2015 as 11h48.

O calendário do “não dá nada”!

Por Celso Mariano.

Cuidados no feriado
Nos feriados aumenta o número de motoristas que dirigem embriagados.

A cultura do “não dá nada”, que muitos brasileiros crescidinhos enxergam com facilidade no comportamento dos jovens – mas não percebem em si próprios – está por trás de acontecimentos desastrosos e aparentemente desconexos: tanto no incêndio da Boate Kiss, no rompimento da barragem de Mariana, quanto nos acidentes de trânsito que estão acontecendo e ainda vão acontecer neste feriadão.

Nosso espírito “não dá nada” nos diz, persuasivo, que Deus é brasileiro, que se Deus quiser nada de mal vai nos acontecer, que não merecemos coisas ruins em nossas vidas, afinal somos filhos de Deus. E por aí vai.

Uma voz lá no fundo de nossas cabeças temerosamente desajuizadas grita baixinho para tentar nos alertar sobre os perigos. Mas quase não a ouvimos. Porque há uma poderosa sinfonia em nossas cabeças cantando que “não dá nada”. Em ritmo de funk, provavelmente. Ou pancadão sertanejo. Ou algum destes ritmos que nem todos curtem, mas todos ouvem em alto volume graças à benevolência voluntariosa dos “sonorizadores” de plantão.

No fundo, no fundo, sabemos, intuitivamente, que recintos fechados, resíduos tóxicos represados, e veículos em circulação, requerem protocolos mínimos de segurança. Especialmente ambientes superlotados de jovens focados apenas em se divertir, lodo amontoado aos milhões de toneladas apontadas para cidades e rios e, claro, veículos conduzidos por pessoas não tão bem preparadas ou atentas ao potencial destrutivo do que estão fazendo.

Nesta época do ano todos lembram de aproveitar o feriado, a viagem, e as férias. E muitos, muitos mesmo, esquecem de revisar os freios, a documentação e as regras de trânsito. Afinal o que importa é se divertir e comemorar. “Bebemorar” também. O espírito do “não dá nada” nos embala numa doce ilusão de que vai dar tudo certo.

E pode, sim, dar tudo certo. Basta cada um de nós prestar atenção naquela vozinha que grita insistente, nos chamando às atitudes responsáveis. Basta emprestarmos um pouquinho da nossa inteligência, boa vontade e amor próprio a este lampejo de consciência que grita por de trás da barulheira do “não dá nada”.

E então, como num toque de mágica, tudo ficará mais claro: perceberemos que havia mesmo algo de muito errado numa boate como a Kiss ou numa contenção como a barragem de Mariana. Aí então conseguiremos olhar com outros olhos nossas estradas e cidades. Nos feriadões, milhões vão prá lá e prá cá, ocupando frenética e intensamente este gigantesco e já tão complicado e violento espaço social que tratamos por trânsito.

Só que com muito mais condutores e pedestres embalados pela bebida, euforia e, certamente, descompromissos formais. A maioria destas pessoas estará com foco apenas na diversão. Ouvirão sua seleção preferida de músicas como uma versão remix daquela grudenta melodia do “não dá nada”. Seu ritmo de viagem e jeitão de conduzir nas cidades visitadas estarão no padrão de comportamento desligadão, superficial e perigoso.

E assim, as chances do espírito do “não dá nada” continuar cadenciando nossas vidas são enormes. Sempre, mas especialmente nos feriados. E outras tantas boates e represas – apesar da desgraça na Kiss e em Mariana – permanecerão inseguras. Porque achamos que os desastres – que insistimos em chamar de acidentes – são desígnios de Deus, não nosso. Tal qual acontece em nosso trânsito. Matamos dezenas de milhares no ano passado, outros tantos neste ano e repetiremos a dose no próximo e no próximo… ad eternum, até que consigamos entender que o “não dá nada” é uma armadilha mortal. Nos feriadões precisamos lembrar que quem está de folga somos nós, não as leis ou os perigos do trânsito.

E, à propósito, Deus certamente tem coisas mais importantes para fazer do que ficar cuidando das nossas infantilidades. Portanto, façamos a nossa parte, independente do calendário.

Falei sobre os riscos do trânsito nos feriadões, na última sexta-feira, para os ouvintes da BandNews FM.

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