Publicado em 14 de junho, 2017 as 15h21.

Na sua cidade, como estará a MOBILIDADE da pessoa com DEFICIÊNCIA VISUAL?

Por ACésar Veiga.

Foto: Divulgação ACésar Veiga.
Foto: Divulgação ACésar Veiga.

A primeira vez que decidi nutrir destemor, manifestando desejo em lecionar a “pessoas com deficiência visual” foi na década de 1970. (turma de adultos com aquele exclusivo e resolvido aluno “cego” – o Sr. Elenir)
 
Tempos depois – na década de 1990, outra turma mista -, e um novo encontro com estes amigos. (agora em pré-vestibular e presente a estima de um casal de “cegos”)
 
Atualmente “labuto” numa escola para jovens e adultos.
 
Lá, comparecem alunos com “deficiência auditiva”, “deficiência visual”, “deficiência intelectual”, obesos, magros, bonitos, feios, altos e baixos. (constantemente nessa escola, nós os professores, estamos quase que diariamente ensaiando o “novo”)
 
OBS 01: devo realçar que o vocábulo “deficiência visual” acolhe tanto os cegos – aqueles que não enxergam nada -, como os que apresentam baixa visão. (a pessoa que apresenta “baixa visão” é aquela que possui dificuldade em desempenhar tarefas visuais, mesmo com prescrição de lentes corretivas, mas que pode aprimorar sua capacidade de realizar tais ocupações com a utilização de estratégias visuais compensatórias, além de outros recursos e modificações ambientais)
 
OBS 02: “deficiente” ou “pessoa deficiente” não pode ser confundido em hipótese alguma com a falta de eficiência da pessoa – o que é inadequadamente concebido por muitos. A utilização desses termos no texto tem a intenção de mencionar exclusivamente a deficiência específica da pessoa – seja ela física, visual, auditiva, intelectual ou mental.

Como é o dever da sociedade formar um cidadão que conviva com a possibilidade da “falta de informação”, mas que não seja seduzido por ela, vou salientar a questão da pessoa com “deficiência visual”.
 
No mês passado recebemos nesta escola uma aluna “cega” que chegou para prestar avaliação na disciplina de Química – sou o professor responsável.

OBS 03: destaco que avaliação do aluno com “deficiência visual” é igual a das outras variedades de alunos…(buscamos trabalhar com democracia, desafio e motivação)
 
O procedimento avaliativo inicia com a professora especializada em alunos com “deficiência visual” principiando a leitura das questões objetivas – que é o formato de toda avaliação -, assim como suas respectivas alternativas – são questões de marcar o “x”.
(o aluno analisa cada questão, sucessivamente, e suas alternativas)
 
OBS 04: a avaliação ocorre em sala específica onde ficam exclusivamente a professora e o aluno.
 
Depois da análise da questão, ele – o aluno -, diz a professora qual a letra que corresponde – segundo seu julgamento -, a resposta correta da questão examinada. (cada pergunta – no total de 30 -, apresenta cinco alternativas das quais “uma” é a correta)
 
Depois de examinadas todas as questões, a professora transcreve os “julgamentos” para uma grade de respostas onde após, é entregue…(momento em que executo a correção)
 
Para aprovação, o aluno deve acertar no mínimo 50% das perguntas – total de 15 questões.
 
Caso não atinja o escore, retorna em outra data e faz nova avaliação – diferente da prova já realizada. (simples assim… Risos)
 
OBS 05: existe o polígrafo de cada disciplina, igual a todos os alunos – sejam deficientes visuais, auditivos, não deficientes etc.
Para estudar, o aluno com “deficiência visual” necessita do auxílio – amigos, familiares, programa de computador -, para a leitura dos conteúdos, pois não possuímos o material das disciplinas em “Sistema Braille”– faltam recursos.
 
OBS 06: Com ajuda da tecnologia pessoas com deficiência visual podem desfrutar do prazer da leitura e do estudar. Um conjunto de programas viabiliza transformar qualquer formato de texto disponível no computador em texto digital falado. Um desses tipos de software está disponível, sem custo, no portal do Ministério da Educação – MEC.
 
Assim, neste convívio escolar, também exercito a condição de cidadão, conversando a respeito dos aspectos cotidianos dos alunos…(é uma prática que aprecio, pois a nossa cidadania deve ser diariamente uma demonstração das verdades que esperamos e pregamos)
 
Desta maneira, dentre os diversos assuntos que conversamos, a mobilidade urbana por vezes assina presença…
 
OBS 07: mesmo conhecedor de que o número de alunos com “deficiência visual” não é – ainda -, representativo para um levantamento estatístico adequado, transcrevo algumas observações a seguir colhidas nestes “bate-papos”, que seriam segundo a percepção e o sentimento de alguns “discípulos”, a constatação da mobilidade na cidade de Porto Alegre para as pessoas com “deficiência visual”, principalmente os “cegos”.
 
Deveríamos saber da existência dos problemas ainda camuflados e mal resolvidos que impedem a sociedade da libertação do imediatismo e do individualismo, que fabricam desta maneira o enorme “fosso” da desigualdade que nos influencia, independente de nele acreditarmos ou não…pois nós somos aquilo que fazemos repetidas vezes. (a “excelência” então, não é um ato, mas um hábito)
 
E como não só a crença vai ajudar, você terá de experimentar a informação. Então aqui transcrevo algumas questões que envolvem o objetivo do texto:
 
– PISO TÁTIL
 
Um dos grandes problemas que estes cidadãos enfrentam é o número muito pequeno de “piso tátil” na cidade.
 
OBS 08: “piso tátil” é o piso diferenciado com textura e cor sempre em destaque com o piso que estiver ao redor. Deve ser perceptível por pessoas cegas ou de baixa visão. (é importante saber que o piso tátil tem a função de orientar pessoas com deficiência visual em espaços públicos, tanto internos quanto externos)
 
Os existentes no centro da cidade de Porto Alegre, na maior parte estão obstruídos por camelôs/ambulantes que colocam suas mercadorias muitas vezes espalhadas ou bem próximas das calçadas, originando empecilhos para a pessoa com deficiência visual que circula, sendo esta obrigada então a caminhar pela via. (cabe salientar que em outras oportunidades alguns camelôs/ambulantes auxiliam a pessoa com deficiência visual a prosseguir pela opção não correta, que é a via. Será benevolência ou culpa?)
 
– DEMAIS CIDADÃOS – as famigeradas pessoas “sem deficiência visual”…
 
Na maioria dos encontros, a pessoa com deficiência visual é que tem de prestar atenção neles, e não o contrário. Por desatenção ou descaso o pedestre “sem deficiência visual” esbarra, derruba, amassa e até quebram bengalas. (a vida urbana jamais deveria tornar-se um sinônimo de conflito)
 
Sempre a ajuda das pessoas é bem-vinda no cotidiano daqueles com deficiência visual, especialmente quando se refere à travessia de ruas e avenidas. (em algumas situações é difícil conseguir ajuda, pois as pessoas estão sempre com pressa, não tem tempo para dar informações ou conduzir alguém ao seu destino – estes são os exemplos típicos das chamadas “barreiras atitudinais”)
 
OBS 09: em determinadas situações “a vida” têm de realizar um verdadeiro “ato circense” para fornecer auxilio a certas dificuldades, e nesse cenário o “preconceito” é uma das barreiras que aqueles com deficiência visual precisam enfrentar – além das outras situações do dia-a-dia. (ser “independente” é um destes desafios; acreditando em si mesmo e encarando as situações)
 
– SINALEIRA SONORA
 
Embora não tenha o suficiente, as existentes apresentam o “tempo” para travessia muito curto.
 
No que se refere especificadamente às pessoas com deficiência visual, existe “lei” que menciona a necessidade de implantação de dispositivos sonoros – intermitente e não estridente -, nos semáforos/sinaleiras para orientação na travessia de ruas e avenidas com trânsito intenso. (mas estas determinações acabam tendo vida curta)
 
OBS 10: as sinaleiras/semáforos fazem falta nos corredores de ônibus e nos bairros – mesmo que não tenham muito movimento de carros. (na verdade seria ótimo se existissem em toda a cidade – onde necessário fosse -, mas o discurso de cumprir a “lei” ficou na promessa e no anúncio)
 
– CALÇADAS
 
Existe a falta de conservação das calçadas, que na sua maioria estão sem nivelamento, com irregularidades, rachaduras e buracos.
(algumas destas cavidades até profundas e outras, às vezes, com água da chuva dentro – um presente da prefeitura)
 
Algumas calçadas também são estreitas dificultando o caminhar sem esbarrar nas paredes e outros objetos. A ausência de “piso tátil” – tanto o guia quanto o alerta -, em muitos espaços de circulação, somado as irregularidades e equívocos nas instalações dos mesmos, contribuem expressivamente para limitar, dificultar e colocar em risco a segurança de todos. (em alguns casos na instalação do piso tátil os procedimentos não seguem as especificações ou normas técnicas de instalação e/ou os construtores desconhecem a diferença entre o guia e o alerta)
 
OBS 11: em terminais de ônibus, faltam pisos “guia e alerta” e os pisos instalados na área de embarque estão muito próximos dos veículos, o que causa insegurança e risco aos usuários com deficiência visual.
 
– MOTORISTAS DOS ÔNIBUS
 
Os motoristas dos ônibus muitas vezes não esperam ou não são atentos aos cidadãos nas paradas de ônibus. (se alguém não ajudar, o deficiente visual se atrasa aos compromissos)
 
– ARQUITETURA DA CIDADE – são as principais barreiras que a cidade impõe.
 
Os principais desafios enfrentados convivem nas questões das barreiras arquitetônicas urbanísticas e nas de edificações, na medida em que os principais obstáculos que impedem a acessibilidade e a autonomia se encontram nas vias públicas, nos terminais de ônibus, nas rodoviárias e nos shopping centers.
 
OBS 12: em alguns shoppings, os “seguranças” oferecem ajuda para conduzi-los a determinados locais e lojas. A locomoção autônoma também fica comprometida, pois os espaços são amplos e estão sempre sofrendo alterações devido a ocasiões especiais, datas comemorativas e também a instalações de quiosques nos corredores.
(a instalação dos pisos táteis ainda é muito precária nesses lugares)
 
OBS 13: outros inconvenientes relacionados à arquitetura do meio urbano são a falta de guias rebaixadas, inadequação de lojas e restaurantes, transporte deficiente, diversas barreiras em prédios comerciais e públicos, postes, lixeiras, telefones públicos, árvores e veículos estacionados sobre as calçadas entre outros.
 
– EDUCAÇÃO
 
O ensino profissional é precário.
 
– NO MUNDO
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo abriga perto de 650 milhões de pessoas com deficiências visuais – a maioria delas vivendo em países em desenvolvimento. Em Porto Alegre estima-se que sejam 5.500 e no Brasil a estimativa é de que em torno de 14% da população possua algum tipo de comprometimento visual – que é um número bem maior do que o esperado.

– INCLUSÃO

Será que a sociedade brasileira está apta a servir e a incluir os com deficiência visual no seu dia-a-dia?

– No geral, a resposta é não. (às vezes, até a própria família não se mostra preparada para isso)
 
Então é preciso promover mudanças na sociedade – de estrutura, atitude e pensamento -, priorizando as potencialidades individuais e não as incapacidades ou impedimentos.
 
Que os direitos fundamentais sejam devidamente assegurados a quem necessita e que as leis brasileiras não sejam ignoradas ou descumpridas.
 
OBS 14: a bengala utilizada pelos cegos é, por conseguinte, a principal e mais importante ferramenta de apoio na locomoção autônoma dos cegos nos espaços públicos, como também de proteção em locais que oferecem risco de queda ou colisão. Todavia, devido à fragilidade dos recursos de mobilidade, o uso da bengala não supera os obstáculos e o auxílio humano se faz necessário em diferentes momentos.
 
OBS 15: não podemos deixar de falar dos recursos econômicos da pessoa deficiente visual, que sem dúvida alguma as dificuldades dos deficientes visuais de baixa renda são ainda maiores.
 
O Brasil tem avançado imensamente na elaboração de documentos legais e na implantação de políticas públicas de inclusão, na tentativa de oferecer melhores condições de inserção social desses cidadãos na nossa sociedade. (entretanto, o que se observa é que as tentativas são sutis, evasivas, ineficientes e em muitos casos inexistentes)
 
Muitos instrumentos legais foram elaborados, assinados e divulgados, porém, suas ações e propostas ainda não se efetivaram de fato ou não lhes foi dado o devido valor. (a acessibilidade é, portanto, uma caminhada árdua e feita a passos lentos)
 
Fala-se muito na inclusão, e algumas situações ditas de sucesso são na realidade catastróficas…então quem sabe se ficarmos totalmente encharcados de boas atitudes e comprometimento social? (há aqui, como foi dito, uma lacuna social e política comprometedora)
 
Triste…
 
Mas, parece-me que quanto mais falarmos sobre esses assuntos, maiores serão as chances de tocarmos o coração dos ditos “sem deficiência” e  envolvermos mais e mais pessoas na luta pela igualdade de direitos.
 
Dedico as palavras de hoje ao casal “Bruna Domingos” e “Diego Duarte Lopes” pelo carinho e boa vontade que me ofertaram ao participar como colaboradores do texto. 

Abraços,