Publicado em 24 de abril, 2018 as 08h25.

Maus exemplos de príncipes e princesas

Por Celso Mariano.

foto: tvefamosidades.uol.com.br
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Celebridades e ilustres desconhecidos são iguais: todos são capazes de fazer grandes bobagens. Mas os desconhecidos influenciam poucas pessoas com seus maus exemplos. Já as celebridades… Bem, você sabe. Um mau exemplo é tão, ou até mais, influenciador de comportamentos do que um bom exemplo. Exemplos de personalidades públicas, bons ou maus, podem facilmente serem tomados como referência. E por que damos atenção aos maus exemplos? Imagino que por conta de uma certa afinidade natural que todos temos, am alguma medida, com a transgressão. Ela nos é atraente.

Quando um mau comportamento no trânsito aparece aqui ou ali, manifesto por um qualquer, não damos muita bola. Mas se vier de alguém muito conhecido, dos príncipes e princesas das telonas, telas e telinhas, certamente iremos notar. Será que Antoine de Saint Exupéry tinha razão em seu conhecidíssimo “tu és responsável por quem cativas”? E será que cabe, neste caso das celebridades que dão maus exemplos no trânsito, invocar aquela mensagem de O Pequeno Príncipe? Não sei. Só desconfio.

Então me perdoem a referência literária um tanto estranha – isso eu sei – para o universo da cultura de segurança. Mas intuitivamente, sempre penso nas responsabilidades que acompanham a fama. As celebridades cativam, e são muitos olhares, admirações, sonhos. Exemplos pouco recomendáveis que vêm de quem se espera sempre comportamentos ilibados, podem gerar grandes efeitos negativos no comportamento de seus “cativados”. Se meu ídolo faz, também quero fazer. Se até ele/ela pode, por que não eu? 

Talvez seja exigir demais, de quem se tornou referência muitas vezes sem pretenção, planejamento ou preparo, talentos maiores do que tocar, cantar, dançar, interpretar, comunicar, animar, entreter, etc. Afinal, profissionais que adquiriram fama e fãs – justamente por cumprirem bem seus papéis – precisam de individualidade, privacidade, vida pessoal. Merecem. Seria bem justo. Mas não é bem assim. 

As pessoas andam muito carentes, precisando de referências, de ter quem seguir, quem copiar, em quem buscar inspiração. 

Então, os queridos ídolos de todas as áreas da cultura, dos esportes, da política, das religiões e, ademais, de tudo o que significa atividade humana que se destaca do trivial, precisam admitir que são, querendo ou não, responsáveis por quem cativaram.  E sobre seus adorados ombros recai o peso de quem contraiu responsabilidades muito além daquelas da profissão. Simplesmente é assim. 

Quando uma personalidade dessas comete abusos no trânsito, esta área cheia de particularidades e limites legais para aplicação de multas, acabam prestando um desserviço grave para a segurança em nossa mobilidade como um todo. Se aquele artista aparece numa foto ou vídeo sem cinto, todos veem, inclusive as autoridades, e não há punição – graças às tais limitações – o exemplo que fica é poderosamente desestimulante para a adoção de comportamentos seguros por parte deste público que toma esta pessoa como referência.

O padrão de fiscalização adotado no Brasil não permite, em vários casos, que uma autuação aconteça fora do tempo em que ela é cometida ou sem que o agente de trânsito veja diretamente o seu cometimento. Assim, um vídeo postado em redes sociais, onde o condutor ou passageiro apareça sem usar o cinto de segurança, não possibilita a autuação. O mesmo vale para fotos ou relatos de terceiros, de que fulano ou cicrano fez esta ou aquela manobra proibida. 

Então, quando o “se ele faz eu também quero fazer” muda para um “ele faz, não é multado e não dá nada, claro que eu também posso fazer”, lembro sempre de Saint Exupéry: quando somos admirados, queridos e amados, nos tornamos responsáveis.

Este assunto foi tema de uma matéria no Uol, da qual eu participei, na semana passada. Leia aqui.