Publicado em 12 de julho, 2016 as 09h00.

Acidente inevitável. Inevitável?

Por Celso Mariano.

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Imagem site CBN Curitiba

Passadas algumas poucas horas do desastre na BR 277, que vitimou fatalmente 6 pessoas e deixou 14 feridos, em 03/07/16, falei em uma entrevista ao vivo na Radio CBN Curitiba, com o jornalista Nelson Martins, mesmo sem saber detalhes do que tinha acontecido. Estava falando meio que “no escuro”.

Na vida em sociedade nós sempre estamos, em maior ou menor grau, sujeitos a sofrer os efeitos dos comportamentos das outras pessoas. Para o bem e para o mal. E é no campo da mobilidade que essa verdade se expressa de forma mais contundente. Um trânsito seguro resulta de um ambiente com boa infraestrutura, veículos em boas condições, regras claras e usuários preparados e dispostos a cumpri-las. Mas para desequilibrar esta frágil sintonia, basta que algum destes quesitos deixe de ser atendido.

Aprendi na metodologia do Projeto Vida no Trânsito – a excelente ferramenta que recebemos da OMS para dar conta de cumprirmos as metas da Década de Ações para Segurança no Trânsito – que uma análise detalhada dos acidentes é necessária e reveladora para que se compreenda suas causas e seja possível estabelecer um plano de ação inteligente e eficaz para diminuir este tipo de estupidez. Ao longo da semana várias novas informações foram divulgadas. Depois de uma semana, foi possível assistir na TV, uma reconstituição do acidente

Compreender os porquês nos permitirá sair do infrutífero nível do espanto e alçarmos uma indignação que seja minimamente construtiva. Identificando os fatores que geraram o episódio pode-se quantificar e qualificar o que contribui para que os acidentes aconteçam e, então, agir pontualmente, freando e iniciando a reversão do terrível quadro que nos coloca na lista dos países mais violentos no trânsito. Assim, estaremos pondo luzes sobre o problema.

Quando eu soube do desastre com o caminhão-tanque, fiquei dividido entre os pensamento de que era só mais uma desgraça desta brasileiríssima lista sem fim de acidentes, que acontece toda hora, que só ficamos sabendo de uma pequena parcela do que realmente acontece, etc, e impactado com as imagens chocantes que circulavam, frenéticas, cruas e reveladoras, nas redes sociais. Pensei se nestas horas a facilidade de comunicação poderia servir para chamar a atenção e sensibilizar a turma do não-dá-nada ou se aquele festival de sons e imagens dantescos estariam servindo apenas para saciar nossa sanha atávica de apreciar a desgraça alheia.

Na entrevista na rádio, no dia seguinte ao acidente, tratei de apostar que, uma vez consumado o episódio que tanta atenção estava tendo, o mais útil seria sensibilizar os ouvintes para olharem com mais atenção para esse tipo de problema. Então abordei o assunto falando sobre aspectos importantes que o cidadão comum não percebe no primeiro momento, como as condições de embarque e transporte de produtos perigosos, o preparo dos condutores deste tipo de carga, as condições da rodovia, do clima e deste profissional do volante durante a viagem, as responsabilidades e o papel do dono da carga e do embarcador, a política de uso das rodovias para suas diversas finalidades, a fiscalização, etc.

Mas o que se pode fazer em um caso destes? Os condutores atingidos em cheio pelo caminhão desgovernado, pelo tanque, pela explosão e pelo combustível em chamas, já não tinham muito o quê fazer. Tem acidente que é inevitável. Inevitável? Este não era um acidente inevitável.

E o momento de evitá-lo, FOI ANTES, na hora da seleção do motorista, do veículo, da carga. É ANTES, no processo de formação dos condutores, nos cursos profissionalizantes e em suas renovações periódicas. É ANTES, no projeto da via, na execução da obra, na manutenção, nas melhorias e adequações que devem ser feitas com o passar dos anos, etc. É ANTES, no estabelecimento de políticas de transporte de carga, especialmente as “perigosas”. É ANTES, na elaboração de leis inteligentes, objetivas, exequíveis, instrumentalizadas por uma fiscalização presente e ativa, com punições rigorosas e exemplares que não sejam substituídas por qualquer coisa menos que o justo. E por aí vai.

Enquanto a esmagadora maioria de nós continuar achando que não tem nada a ver com este tipo de assunto, enquanto nos ausentarmos do debate de assuntos de claro interesse e importância social, como o trânsito é, nos restará apenas o espanto. E a indignação do papo furado de boteco. Continuaremos na nefasta listinha mundial das desgraças da mobilidade. É o que eu chamo de ausência cidadã. Participemos, senhores! Estejamos presentes: precisamos de presença cidadã!

E então poderemos assistir acidentes espetaculares apenas nos filmes e seriados de TV, como bom entretenimento de ficção. Não na realidade dos programas jornalísticos. Teremos uma vida mais segura e saberemos exatamente como, onde, quando e porque os acidentes acontecem. E os evitaremos. Não precisaremos amargar a dor de tantas vidas mutiladas e ceifadas. Nem ficar falando no escuro.

Ouça aqui o áudio da Rádio CBN Curitiba:

 

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