Publicado em 13 de outubro, 2017 as 08h17.

Recalculando rotas

Por Rodrigo Vargas de Souza.

Foto: Arquivo Tecnodata.
Foto: Arquivo Tecnodata.

Procurei, não apenas nesse texto, mas em toda a minha trajetória acadêmica e profissional, entender porque razões o trânsito veio a tornar-se da forma como o conhecemos, configurando atualmente um preocupante problema de saúde pública. A priori, me pareceu importante resgatar essa que é uma questão crucial e recorrente não apenas nas minhas escritas, mas da própria Psicologia: a final, quem somos nós? Em contraponto às definições herdadas do ideal moderno, há atualmente algumas concepções que questionam a nossa imagem ocupando, como seres humanos, uma posição especial ou de destaque perante as outras espécies. A desconstrução desse ideal acaba por produzir um crescente reconhecimento das semelhanças entre homem e máquina. Tais semelhanças provocam o surgimento de conceitos como o pós-humanismo, que, embora dê margem para interpretações anti-humanistas e que corroboram com o antigo desejo onipotente de superação do corpo humano, faz refletir a respeito da concepção híbrida do sujeito contemporâneo, que afeta e é afetado pelo não humano, quebrando com o paradigma antropocêntrico moderno.

E é exatamente essa parte não humana que me interessou aqui, pois, a partir dela, pode se compreender a subjetividade de forma heterogênea. Para Guattari¹, a subjetividade é produzida através de agenciamentos que não podem ser qualificados apenas como humanos, mas maquínicos. Para o autor, conceito de máquina, de onde deriva o termo maquínico, surge com o propósito de substituir o de estrutura, remetendo à ideia de produção, processualidade, singularização, de produção da diferença ou diferenciação.

No entanto, é importante distinguirmos aqui o conceito de maquínica e mecânica. A mecânica, segundo Guattari, é relativamente fechada em si mesma, mantendo com o exterior somente relações perfeitamente codificadas, ou seja, serializadas, homogêneas, da ordem de um dualismo, de ação e reação, de uma redução da complexidade das questões que envolvem a subjetividade. Já a maquínica não se basta a si mesma, não se fecha em limites que demarcam territorialidades a parte dos agenciamentos sociais, ambientais, tecnológicos e estéticos, ela se abre para as processualidades com o mundo, seja físico ou corporal, seja invisível ou incorporal. Assim, a subjetividade maquínica é engendrada a partir da autoprodução, da produção autônoma de subjetividade, de uma autopoiese.

A partir disto, me parece justificável o uso do termo “mecanização do humano”. Pois, quando somos atravessados por uma sociedade capitalista midiática, que preconiza uma homogeneização quase mecânica das subjetividades, todo aquele que não responde a certos padrões pré-estabelecidos dentro de uma “normalidade” acaba por ser negado.

Visto isso, me pus a questionar: qual a contribuição da Psicologia para que essa condição se reproduza? A psicologia, desde o final do século XIX, que tem sua origem nos laboratórios de Wunt, ganhou força entrando no respeitado hall das ciências modernas, disseminando seus saberes. No trânsito não poderia ser de outra forma. A trajetória histórica da psicologia sugere uma atuação voltada para a avaliação psicológica utilizada para o processo de habilitação de condutores, com a finalidade de identificar características psicológicas que poderiam constatar condições prévias para o exercício da atividade de dirigir.

No entanto, o processo de Avaliação Psicológica para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) é amplo e envolve informações que são coletadas através de diversas estratégias, como entrevista psicológica, testes psicológicos, observações técnicas que o psicólogo julgar importante serem consideradas. A utilização de testes psicológicos, embora sejam instrumentos importantes, é somente uma das estratégias possíveis neste processo. Porém, a atual expectativa quanto à participação da Psicologia na avaliação de trânsito ainda consiste, predominantemente, na aplicação de testes, como o famoso “HTP” (Casa, Árvore, Pessoa), no qual segundo a sabedoria popular, como bem lembra o psicólogo Jarbas Dametto², “deve-se sempre desenhar o chão!”. Assim, acaba-se banalizando e sua eficácia caindo em descrédito. Nesse sentido, a Psicologia tem atuado de forma excludente, serializante e anti-produtiva junto aos Centros de Formação de Condutores (CFC’s), que bem poderiam se chamar Centro de Fabricação de Condutores, visto a lógica fordista à qual os profissionais da Psicologia estão submetidos. Nesses locais, o esperado é rapidez e agilidade, pois, como bem se sabe, tempo é dinheiro!

Os conhecimentos psicológicos, fundamentando-se em uma visão foucaultiana, estiveram e, em grande parte, ainda estão atrelados a uma concepção objetivista da ciência clássica positivista, se perpetuando ao longo do século XX como uma psicologia da normalidade e da adaptação. Além de servirem como potencializadores do exercício de poder, os quais Foucault vai denominar de política geral de verdade. Segundo ele:

A verdade não existe fora do poder ou sem poder (…). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2002, p.12)³.

E como se esses já não fossem entraves suficientes, a testagem psicológica encontra serias dificuldades no que diz respeito a suas implicações epistemológicas e éticas. Assim como verificado por Jarbas Dametto, a produção científica acerca das possibilidades de avaliação da personalidade aplicada ao trânsito é precária. Mesmo se tratando de uma prática aplicada desde a década de 1950, no que concerne a segurança na condução de veículos automotores, há pouca concordância no que diz respeito a sua validade e importância. Da mesma forma que não são bem claros os métodos e critérios de avaliação, as características de personalidade que viabilizariam ou não ao candidato à condutor a obtenção da CNH parecem divergentes.

Dessa forma, cabe então à Psicologia, diante dessa encruzilhada entre o assujeitar-se a um modelo mecânico de pensar a subjetividade ou engajar-se num processo maquínico de singularização, recalcular rotas que a possibilite chegar a novos destinos. São esses destinos possíveis que pretendo deixar em aberto ao finalizar, pensando que o tema do trânsito se coloca como um analisador interessante e complexo que nos ajuda a refletir sobre a sociedade contemporânea. Pensar o carro e os modos de vida que dele emerge. Mas também pensar modos alternativos, que não se limitem às passagens, mas, quem sabe, se abram para às paisagens.  Se a Psicologia se preocupasse, além das avaliações, também com os processos de produção do sujeito-condutor e desses modos de vida, talvez, viria ampliar os debates que a filosofia, a sociologia e a antropologia, dentre outras áreas de conhecimento, já tem feito.

Referências:

  1. GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de janeiro: Ed 34, 1992.
  2. DAMETTO, J. Observações acerca da relação entre a psicologia e o trânsito: uma outra atuação é possível? Revista Espaço Acadêmico, nº 92, janeiro de 2009. Disponível em: < http://www.espacoacademico.com.br/092/92dametto.pdf > Acesso em: 04/10/13.
  3. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 17.ed. São Paulo: Graal, 2002.