Publicado em 30 de novembro, 2018 as 13h25.

O bode na sala da família Mercosul

Por Rodrigo Vargas de Souza.

Bode na sala
Foto: Imagem editada por Rodrigo V. de Souza.

Existe uma antiga fábula de origem desconhecida que conta a história de um homem que, insatisfeito com a família, fora queixar-se ao padre. Lá chegando, começou a listar os seus problemas. Dentre eles a desobediência e a bagunça dos filhos pela casa, que viviam a brigar, a gritar e a correr de um lado a outro, frequentemente quebrando algum adorno da casa; a esposa que não parava de esbanjar o pouco dinheiro que conseguiam economizar comprando sempre coisas desnecessárias, mas quanto mais ele trabalhava para pagar as contas mais ela reclamava da sua ausência e, para compensar, ia novamente às compras; sua sogra, que há poucos meses passou a viver com eles por questões de saúde, não parava de criticá-lo e questionar a filha por que motivo havia casado-se com “aquele traste” e, se tudo isso não fosse o suficiente, junto com a sogra havia vindo um cunhado pra lá de folgado que, por estar desempregado (“coitadinho”… diziam elas), acabou contraindo uma depressão (bastante conveniente), que o fazia passar o dia deitado no seu sofá bebendo toda a sua cerveja.

Eis que, para resolução de toda aquela problemática, o sábio padre sugeriu que ele conseguisse um bode e amarrasse-o bem no meio da sala. Contrariado, o homem saiu da igreja obstinado a conseguir o animal, não sem antes fazer com que o padre garantisse que isso melhoraria a situação da família. Marcaram de se encontrar após uma semana para discutir o resultado. Passado o período, no horário marcado, os dois se encontraram. Ao questionamento do padre se a situação da família havia melhorado o homem respondeu que não só não tinha melhorado como estava ainda pior! Além de todos os problemas já relatados, agora todos na casa o chamavam de louco por ter trazido aquele animal para dentro de casa. O bode, além de estar destruindo os móveis da sala, ameaçava chifrar cada um que se aproximasse. Sem falar no fedor medonho que se instalara na casa… O padre então, com toda tranquilidade do mundo, sugeriu que retirasse o bode da sua sala e que voltasse em alguns dias.

Passados alguns dias, o homem apareceu com um sorriso enorme no rosto e imensamente agradecido ao padre. Segundo ele, sua família nunca estivera tão feliz. Sua esposa parou de fazer compras desnecessárias e voltou mais sua atenção aos cuidados da casa. Com a economia advinda disso ele conseguiu reduzir sua carga horária e ficar mais tempo com a família. Seu cunhado arrumou um serviço e está até ajudando nos gastos com a casa. Até a saúde da sogra melhorara, permitindo-a realizar atividades com os netos, que por sua vez tornaram-se mais obedientes e por vezes, até ajudam a mãe nos afazeres domésticos. Retirar o bode da sua sala foi a melhor coisa que houvera feito nos últimos anos.

Há algum tempo acompanhamos uma novela sem fim em torno da implantação das placas no padrão Mercosul. É um tal de aprova, revoga, assina, cancela, marca, desmarca, remarca… Um ciclo que parece não ter fim, capaz de causar inveja a qualquer cão daqueles que gosta de correr atrás do rabo! Mas isso não nos causa mais estranheza, afinal de contas esse não é a primeira vez que assistimos novelas feito essa. Já tivemos o capítulo do kit de primeiros socorros, depois o episódio os extintor ABC, mais recentemente a polêmica em torno da normatização para a fiscalização de pedestres e ciclistas… sem mencionarmos, é claro, as mais de 700 resoluções que desnorteariam até mesmo o mitológico Minotauro e fariam o Labirinto de Creta parecer brincadeira de criança!

Enquanto estamos às voltas com as (in)definições acerca da fatídica placa padrão Mercosul, a Década de Ação pela Segurança no Trânsito vai chegando ao fim. Só o que parece não ter fim são as mortes no trânsito, que, além de não estarem diminuindo na maioria das localidades, seguem aumentando. Mas, segundo afirmou o nosso excelentíssimo Ministro das Cidades, Alexandre Baldy, com a assinatura do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS) o país conseguirá reduzir nos próximos 10 anos em 50% os índices de mortalidade no trânsito. Não há nenhuma conotação política no que vou dizer aqui, mas o Brasil sempre esperando a meta chegar para dobrar a meta… Enquanto isso, esperamos que alguém surja e tire de uma vez o bode da nossa sala para que possamos, enfim, começar a nos preocupar com os problemas de verdade.