Publicado em 27 de abril, 2017 as 08h16.

Sobre os cães de Pavlov, os comportamentos e escolhas no trânsito

Por Márcia Pontes.

sinal-vermelhoIvan Petrovich Pavlov foi um fisiologista russo que ficou muito conhecido pelos seus conceitos de condicionamento clássico e pelas suas experiências com cães, muito lembrada nas fundamentações sobre o Behaviorismo, vertente da Psicologia que estuda os comportamentos. Nas suas pesquisas, os cães salivam ao tocar de uma sineta, anunciando que será alimentado. Mas, que raios tem a ver os cães de Pavlov com o comportamento no trânsito?

Curiosamente, após a postagem de um artigo sobre o tema do Maio Amarelo 2017 e da Semana Nacional do Trânsito sobre a temática “A minha Escolha Faz a Diferença”, um leitor foi assertivo dentre outros argumentos no sentido de que: “não se trata de escolha, mas sim, de comportamentos condicionados.” Trocando em miúdos, o que o leitor quis dizer é que as pessoas não fazem escolhas no trânsito ou não são capazes de fazê-las porque são comportamentos já estão condicionados. Isso me lembrou os conceitos de condicionamento de Pavlov.

Com o pesquisador funcionava assim: o cão era alimentado sempre nos mesmos horários do dia, sempre após soar uma sineta. Isso fazia que ao ouvir a sineta os cães salivassem, meio que “sabendo” que seriam alimentados. E com os usuários do trânsito, como se dá o condicionamento?

O motorista que se aproxima de um semáforo e constata que ficou amarelo a primeira reação é de acelerar para não ficar esperando por intermináveis 30 segundos de sua vida no sinal vermelho. A campanha de segurança no trânsito diz que esse mesmo motorista pode fazer escolhas: eu posso escolher me aproximar com cuidado do semáforo, dar breves toques no freio e avisar o condutor de trás que eu irei parar e aguardar pacientemente (ou não), por 30 segundos até que o sinal se torne verde novamente para ele prosseguir.

Outra categoria de usuários do trânsito que costuma apresentar comportamento condicionado são os pedestres: o sinal está vermelho para ele, mas se lança sobre a faixa displicentemente ou com indulgência por entre os veículos em movimento. Poderia fazer a escolha mais acertada e segura de esperar o sinal ficar verde para os pedestres ou em uma faixa sem dispositivo luminoso, estender a mão, olhar, calcular a proximidade, a distância, a velocidade dos veículos e aguardar até a parada total dos motorizados para fazer a travessia de modo seguro.

O comportamento condicionado do cão era de cão salivar ao ouvir a sineta anunciando a sua alimentação; já o comportamento condicionado dos usuários do trânsito é de continuar fazendo o que sempre faziam e do modo incorreto sempre que o sinal fica amarelo, sempre que atravessam fora da faixa ou sobre a faixa com o sinal vermelho. Outros, teriam condicionado o seu comportamento a trafegar pelo corredor nos congestionamentos, furar o sinal vermelho do semáforo, ultrapassar em locais proibidos, abusar da velocidade com menos fluxo de veículos, e por aí vai. Como se não se diferenciassem dos cães de Pavlov.

Ocorre que há uma enorme diferença entre cães e homens, ainda que os cães demonstrem em muitas ocasiões muito mais inteligência que muitos espécimes da racional raça humana. É justamente a racionalidade, a capacidade de pensar, de raciocinar, de ponderar, de fazer julgamentos e escolhas o que nos diferencia das demais espécies.

Os cães não fazem escolhas ou tomam decisões: eles agem por instinto e por tão bem sucedido o condicionamento, podem obedecer ao menor comando sem desviar do padrão.

Os homens, embora, também possam condicionar-se a padrões de comportamentos, têm o livre arbítrio, o raciocínio e a capacidade de tomar decisões e fazer escolhas bem antes do acidente que vai mudar a sua vida para sempre.

No caso dos usuários do trânsito o fato de sair ileso de uma escolha errada é o que dá linha na pipa para que continue reincidindo e recorrendo em comportamentos e práticas inseguras no trânsito. Dificilmente um pedestre atropelado fora da faixa quando há faixa incorrerá no mesmo erro após o acidente. Vai “aprender” a atravessar na faixa e aguardar o sinal redobrando todos os cuidados.

Um motorista que acelerou no amarelo “achando” que o motorista da frente faria o mesmo vai pensar mais vezes e fazer escolhas diferentes e mais acertadas para não repetir o erro. Há duas coisas que rompem o ciclo do condicionamento no trânsito: o pós-acidente e a prevenção; o parar, o pensar, o ponderar, o rever e ajustar as suas práticas em função de suas escolhas.

É pedindo licença à ciência da Psicologia para fazer uma analogia que não reflete toda a sua profundidade que proponho a seguinte reflexão. Cães são obedientes, agem por instinto, mas podem ser condicionados com muita eficiência e eficácia. Cães não fazem escolhas, seres humanos sim.

Seres humanos, quando diante de estímulos adequados, são capazes de realizar aprendizagens seguras para o trânsito. São capazes de mudar comportamentos e de rever suas práticas em via pública. Detalhe: só quando recebem os estímulos certos, por meio de estratégias adequadas que lhes despertem a intencionalidade e a volição.

Um tema já temos: “A minha escolha faz a diferença no trânsito”. O modo como se trabalhará a abrangência e a qualidade dos estímulos (plano coletivo) voltados à escolhas seguras (plano individual) é que vai determinar a nossa capacidade (poder público, sociedade multissetorial, indivíduos) de influenciar positivamente outras pessoas.

Você não precisa esperar que o acidente seja provocado para romper o ciclo do comportamento condicionado no trânsito. O que você vai escolher da próxima vez que estiver desempenhando todos os seus papéis no trânsito?