Publicado em 12 de agosto, 2016 as 15h47.

Online para o virtual, offline para a vida real

Por Márcia Pontes.

Pokemon Go
Foto: Divulgação Apple Store

O aplicativo Pokemón Go é a febre do momento. Um jogo de realidade aumentada que utiliza o celular, a internet e o GPS. O jogador informa ao aplicativo a sua localização e sai para áreas externas à caça de monstrinhos virtuais. Só que eles aparecem no mapa do GPS em áreas reais: canteiros, quintais, do outro lado da rua, em avenidas, dentro de casa, enfim… Nesse jogo de interação entre o real e o virtual o jogador tem que caminhar em busca dos pokemóns. Desde que o aplicativo foi liberado no Brasil são frequentes as notícias de atropelamentos, colisões, quedas da própria altura e de prédios nos andares mais altos. Até afogamentos se sabe que foram a causa da morte de caçadores de pokemóns. E as consequências dos comportamentos de quem brinca com a realidade aumentada como se reflete no trânsito?

Alheia às especulações, juízos de valor e (des)qualificações do Pokemón Go que o tratam como coisa do capeta, jogo do diabo, jogo que forma uma geração de zumbis e afins, procuro ver da ótica da minha formação e profissão: a segurança no trânsito.

As defesas mais inflamadas deste jogo de realidade aumentada o nivelam com outros aplicativos como o próprio whatsapp, facebook, linkedin e tantos outros. Só que o whatsapp, o facebook, o linkedin e outros jogos podem ser acessados de celular ou computador de mesa em ambientes seguros, ainda que não o sejam e possamos ver isso inclusive no trânsito.

Sim, estão certos quando mencionam as pessoas que já provocaram colisões digitando mensagens de voz, teclando, escrevendo mensagens de texto, assim como estão certos quando mencionam os pedestres atropelados na faixa ou fora dela porque estavam usando fones de ouvido e não ouviram os sons naturais do trânsito. Muitos ciclistas também já foram mortos dessa forma, assim como os motoristas que dirigiam com fone de ouvido ou som alto. Só que numa coisa o jogo de realidade aumentada se diferencia: se não sair para o mundo real, para o espaço público atrás dos monstrinhos Pokemón não vai conseguir jogar.

É exigência ter que caminhar até o lado externo da casa e para além dos limites do quintal ou do prédio para jogar. E o pior: caminhar distraído, olhando para a tela do celular para não perder a criatura virtual de vista enquanto que na vida real o risco de acidente se potencializa. Risco de atropelamentos, de colisões quando se dirige para chegar ao Pokemón mais raro, que dá mais pontuação ou mais difícil de ser caçado.

É fato que a tecnologia é uma das grandes revoluções da humanidade, tanto quanto a Revolução Industrial e tantas outras, além de ser um caminho sem volta. Nem que quiséssemos eliminaríamos o celular e tantas outras conquistas tecnológicas que mudaram realmente o rumo da humanidade e das nossas vidas. Certamente, os benefícios e as  contribuições da tecnologia estão presentes e são muito maiores e mais positivas, sobretudo para o bem.

A questão está na falta de limites e no mau uso da tecnologia em função dos comportamentos humanos. No acidente de trânsito a culpa não é do carro: é do comportamento, das atitudes, das práticas dos motoristas. E mesmo quando o carro pifa, a falha é de quem deveria ter feito a manutenção preventiva e não fez. Negligência.

Comparações simplistas tais como “se tem acidentes acabem com os carros” são de uma ingenuidade tamanha ou de uma pequenez extrema ao ponto de não reconhecer a função dos motorizados em nossas vidas para o transporte e o deslocamento de pessoas. Não se pode jogar o bebê fora junto com a água do banho.

Como se já não bastassem as tantas formas de distração no trânsito, temos de lidar com mais esta: a distração dos caçadores de pokemóns que atravessam a rua sem olhar e sem constatar quando o sinal mudou de cor. A velha mania de olhar e sair correndo e que ignora o estado de inércia quando o veículo já vem a 50, 60, 70 ou mais quilômetros por hora.

Assim como nas postagens, memes e tantos apelos em redes sociais em que os casais estão na mesma cama, cada um virado para o seu lado ou de frente olhando para o celular e não se veem, não se enxergam, estamos nos distanciando cada dia mais uns dos outros. Famílias que já não fazem mais as refeições juntas, os grupos de trabalho que se encontram apenas virtualmente, cada um de suas casas e de seus equipamentos eletrônicos, o diálogo que some e agora é virtual, as relações afetivas que vão se enfraquecendo.

Se antes já éramos uma geração que reclamava do individualismo e do egoísmo, estamos ficando individualistas hi-tech. Mas, até aqui, isso ainda é tratado como divagação.

Voltando para as consequências do jogo de realidade aumentada e o trânsito, a realidade do trânsito que mata e sequela milhões em todo o mundo, que já é uma realidade bem grande, doída, sofrida, violenta, cheia de dor e sofrimento, pode ser realmente aumentada pela distração de caçadores de pokemóns.

O uso racional do carro diminui e impacta menos o meio ambiente, a mobilidade e a vida das pessoas. O uso racional e inteligente da tecnologia só traz benefícios. Como em tudo na vida a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. A culpa não é do carro, é de quem o dirige. A culpa é do jogo? Ou de quem joga distraído, online para o virtual e offline para a vida real?