Publicado em 17 de novembro, 2016 as 08h15.

O Dia Mundial em Memória às Vítimas do Trânsito na visão dos familiares

Por Márcia Pontes.

cruzesO dia 20 de novembro terá nos cinco continentes algum tipo de manifestação ou celebração em respeito aos que se foram cedo demais e aos sobreviventes da violência no trânsito e seus familiares. A iniciativa é multissetorial: participarão os agentes de trânsito, os socorristas, os médicos, os bombeiros, os funcionários públicos, médicos, traumatologistas, psicólogos, cidadãos e todas as demais pessoas de bem sensibilizadas pela dor de quem perdeu o seu ente querido na via ou cuida dele, sequelado permanente ou não. Em Blumenau ergueremos um memorial. Muitos tiveram perdas recentes e ainda é muito difícil sequer tocar no assunto. Pergunte às vítimas. Pergunte às famílias das vítimas qual o significado deste dia tão importante em que se celebra a vida e se tenta sensibilizar para a conscientização os condutores e os governos e suas pastas acerca dos investimentos para poupar vidas.

O tema do Dia Mundial deste ano tem tudo a ver com um dos principais pleitos, desejos, anseios e esforços da sociedade brasileira e no mundo: o fim do sentimento de impunidade de quem mata e mutila no trânsito e continua solto, dirigindo e, muitos, reincidindo enquanto para as famílias resta uma dor e sofrimento que não acaba nunca! Atendimento às vítimas, investigação do acidente e punição para que algum tipo de alento em forma de justiça seja dado aos familiares e amigos enlutados. Essa também é a preocupação da ONU e da Federação Européia de Vítimas de Trânsito.

Pergunte ao filho que vai crescer sem o pai o que representa essa data. Pergunte aos pais órfãos de filhos, aos irmãos órfão de irmãos, mas não deixe de perguntar também à sociedade o que essa data representa além de cerimônias e monumentos.

Pergunte aos governos que gastam bilhões atendendo acidentes, recolhendo corpos, multiplicando sem poder leitos hospitalares e corredores, fazendo das tripas coração para dar conta se os investimentos em medidas cautelares para salvar vidas corresponde ao nível de sensibilização e de conscientização que pretendem demonstrar nas cerimônias.

Ocorre que depois que a cerimônia acabar muitos órfãos de vidas roubadas no trânsito voltarão para as suas casas e continuarão cuidando das vítimas sequeladas neurológicas. Outros, mergulharão no vazio da ausência, quem sabe contemplando alguma foto, peça de roupa ou para ouvir a última mensagem de voz que ele ou ela deixou confirmando o compromisso daquele dia ou mesmo para avisar que já estava chegando. Já faz tanto tempo, mas nunca tiveram coragem de apagar só para não perder a última coisa que restou: a voz grava de quem se foi e nunca mais vai voltar.

Realmente, o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito é um dia para celebrar a vida, para lembrar e honrar a memória de quem se foi; para tornar a dor e o sofrimento público, para pedir por justiça e para que outras vidas não tenham o mesmo fim. É para não perder a esperança de que um dia isso acabe. Ou, para não perder a esperança de ver quem matou e feriu gravemente no trânsito pagar pelas consequências da imprudência e da negligência de seus atos.

São tantos os laços e as cores que simbolizam o engajamento a diversas causas pela vida! É tanta gente envolvida, engajada, empenhada! Mas, na prática, no dia a dia, continuamos abrindo cada vez mais caminho para as sirenes; continuamos cada dia mais recolhendo corpos e chorando outras mortes e sequelas que poderiam ser evitadas.

E assim seguimos pela vida, muitos, apenas respirando e “chamando” de acidente aquilo que sabemos que não foi acidente. Seguimos encontrando quem tirou a vida de quem amamos tanto em algum semáforo, lado a lado conosco, esperando o sinal verde para seguir em frente. Quem sabe em alguma balada, lanchonete ou pub segurando o copo em uma mão e a chave do carro na outra, como se nada tivesse acontecido.

Sabem porque é tão difícil para muitos familiares e amigos tentarem compreender o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito? Porque não estamos na pele deles. Se estamos, nos identificamos, mas não precisaríamos ter perdido alguém para isso.

Em muito, foi a perda de familiares no trânsito que me trouxe para esse caminho e me fez vestir a segurança no trânsito como profissão e segunda pele.

Quem, assim como eu, perdeu alguém que ama no trânsito saberá bem do que estou falando e o quanto a nossa dor parece que nunca termina. Eu também tenho mortos no trânsito para lembrar e reverenciar a memória. Eu também tenho familiares e irmãos sequelados para lembrar neste dia, para agradecer pela vida deles e por não terem ido embora cedo demais.

E quem não tem, ainda é tempo de olhar para o outro, de sensibilizar-se com a dor e o sofrimento do outro e compreender que os seus comportamentos e atitudes preventivas e seguras na vida e no trânsito podem salvar vidas.

Não precisamos perder quem mais amamos para encontrar o significado do Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito.