Publicado em 10 de março, 2016 as 08h28.

Fragilizados no trânsito

Parece haver desinteresse em proteger os mais frágeis no trânsito. Não se vê atitudes continuadas das autoridades para preservar a vida impedindo o aparecimento de problemas econômico social que vão recair sobre as famílias e o próprio governo

Por Mariana Czerwonka.

 * Dr. Dirceu Rodrigues ALVES

Pedestre no trânsito
Temos observado a crescente chegada aos prontos socorros de pedestres com lesões graves.

São mutilados e outros lesionados que chegam aos prontos socorros muitos sem possibilidade de recuperação que evoluem para óbito. Outros com incapacidades temporária ou definitiva passando a cadeirantes ou dependentes de cuidados de enfermagem permanente.

É sofrimento para todos nós. Sair de uma UTI como profissional de saúde para informar a família à evolução desfavorável de um acidentado de trânsito e mais tarde informar sobre o óbito, é triste, muito triste para aqueles que pretendem preservar vidas. Pior, não havia uma doença em evolução, era um indivíduo que subitamente foi transformado na via pública num doente. E para isso, não é tomada nenhuma medida cautelar. São manchetes da mídia todos os dias. Ninguém tenta transformar o pedestre em um usuário da mobilidade segura.

A proteção maior, de longa data, parece direcionada para os veículos médios e pesados. Após isso, faixas exclusivas foram intensificadas para proteção dos motociclistas, mas já foram interrompidas passando a ser prioridade construção de ciclo faixas para proteção dos ciclistas.

E os pedestres, quando terão a atenção permanente dos municípios para uma mobilidade segura?

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Este gráfico mostra óbitos de pedestres ocorridos na cidade de São Paulo no período de 2005 a 2014.

 

 

 

 

 

 

Em nove anos houve uma queda de 7,4%, o que significa 0,8% ao ano. Valores muito a baixo do que pretendemos na atualidade.

Calçadas esburacadas, postes de iluminação e sinalização no caminho, árvores, degraus, obstáculos os mais variados impedem um transitar seguro para o nosso pedestre e nosso deficiente físico. Mas não é só isso, guia ou meio-fio com pequena altura permitindo com facilidade a subida de um veículo à calçada. Faz-se lei para garantir um estacionamento privativo para os deficientes, mas não se obriga ou fiscaliza um transitar seguro para um cadeirante.

Locais de concentração de pessoas, como nos grandes cruzamentos, pontos de ônibus, curvas perigosas, locais de risco não podem deixar tão expostos àqueles mais frágeis. O perigo de queda pelas irregularidades, o estreitamento da calçada ou ausência da mesma, a necessidade de caminhar pela rua para desviar dos obstáculos mostram o desinteresse dos governantes em querer proteger a vida daqueles que deambulam pelas vias.

Campanhas são iniciadas e logo findam. Leis são aprovadas, mas não são cumpridas e tão pouco fiscalizadas. O foco da proteção é direcionado para aqueles que estão sobre rodas. Os sem rodas estão suscetíveis às múltiplas agressões de tudo que citamos e ainda submetidos a intenso ruído e caminhar respirando gases vapores, poeiras e fuligens.

Interessante é que o motorista, motociclista, ciclista quando estacionam seus veículos e descem passam a condição de pedestre. Quando estão na direção reclamam e rejeitam o pedestre e quando são pedestres reprovam as atitudes dos que estão sobre rodas. Os focos são divergentes, não há consciência de que todos são frágeis e precisam ser respeitados e protegidos.

Será que não estamos tendo a visão global para proteger todos, começando pelos mais frágeis?

Precisamos de atitudes para preservar vidas instalando gradis com elevação das guias nos cruzamentos perigosos, onde há concentração de pessoas como nas paradas de ônibus, correção dos pisos, alargamento das calçadas, mais passarelas ou túneis, desobstruir trajetos e tudo mais.

Temos observado a crescente chegada aos prontos socorros desses pedestres com lesões graves, gravíssimas quando transitam nas calçadas e nas esquinas dos grandes centros.

A desobediência e a falta de conhecimento das regras de trânsito são outros motivos para reprovarmos atitudes governamentais que não são tomadas com relação à ausência de educação de trânsito, fiscalização, reformas de calçadas e criação de alternativas para conter as agressões que se vê na via pública.

É a ABRAMET querendo proteger vidas.

* Dr. Dirceu Rodrigues Alves é Diretor de Comunicação e Chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da ABRAMET – Associação Brasileira de Medicina de Tráfego