Publicado em 25 de fevereiro, 2016 as 06h38.

Além de salvar vidas, vias de baixa velocidade promovem qualidade de vida

Com a diminuição de acidentes, população se sente segura para ocupar as ruas a pé

Por Mariana Czerwonka.

Via calma
No comparativo com o mês anterior à implantação, os acidentes nas Vias Calmas de Curitiba foram reduzidos em cerca de 36%. Foto: Luiz Costa/ SMCS

Lançado em 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), relatório revela que os pedestres correspondem a 22% das mortes anuais ocorridas em acidentes de trânsito no mundo. Por vezes reflexo da imprudência do condutor, o excesso de velocidade pode tanto agravar quanto determinar ocorrências deste caráter. Além da postura do motorista – essencial para vias seguras – algumas medidas também podem corroborar para que as estatísticas sejam abrandadas.

Neste contexto, o diretor e especialista em trânsito da Perkons, Luiz Gustavo Campos, aponta a redução e o controle de velocidade como ferramentas ideais para retrair os altos índices de acidentes que tem o pedestre como vítima, reforçando que melhorias nas calçadas, ciclovias e passarelas devem ser implantadas como medidas complementares. “Essa mudança é necessária onde há grande fluxo de veículos, ciclistas e pedestres, e onde os conflitos acontecem com mais frequência”, frisa.

Para que a adoção de vias calmas seja, de fato, respeitada pelos cidadãos e gere resultados satisfatórios, é preciso haver investimentos tanto em fiscalização, quanto em campanhas que esclareçam os benefícios da medida. “É necessário promover a educação no trânsito para que exista uma convivência respeitosa e harmoniosa entre o motorizado e o não motorizado, condição essencial para uma melhor mobilidade”, associa.

Adeptas da redução da velocidade em vias estratégicas, Londres e Nova Iorque destacam-se pelos resultados e servem de inspiração quando o assunto é a humanização do trânsito. Em Londres, por exemplo, a implantação do limite de 20 milhas por hora (32km/h) foi suficiente para que a capital, em pouco tempo, reduzisse os índices de acidente em 41%. Já em Nova Iorque, a redução da velocidade em vias próximas àquelas com mais fluxo, além da readequação da área de pedestres, resultou em uma queda de 63% no número de feridos em acidentes derivados das altas velocidades.

Exemplos nacionais também revelam resultados positivos

Mas não é preciso atravessar o oceano para encontrar bons exemplos. Em São Paulo, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET/SP) divulgou, em 2015, levantamento sobre o tema. Ocorridas em 2011, adequações nas velocidades de vias têm gerado resultado a médio e longo prazos. Nos 16 eixos foi registrada uma diminuição média de 4,6% dos acidentes nos três anos posteriores à implantação em comparação ao ano que precedeu a medida.

Em novembro de 2015, a capital paranaense também foi palco de novos contornos à dinâmica da região central, mapeada como aquela com os maiores riscos aos pedestres. Dados da Secretaria Municipal de Trânsito (Setran) indicam que, entre 2012 e 2014, 1.173 acidentes foram registrados na região, sendo 106 deles fatais e, destes, 46 por atropelamentos. “Era inadmissível um número tão elevado de acidentes para uma área onde transitam cerca de 700 mil pedestres por dia”, destaca o diretor de engenharia da Setran, Maurício Razera.

O mesmo levantamento revelou um perímetro específico de 140 quarteirões, da Rua Mariano Torres à Praça do Japão, com índices ainda mais concentrados de acidentes. No mesmo período de dois anos, foram 24 mortes, dez por colisões e 12 por atropelamentos. Diante dos números, o trecho – que recebeu o nome de Área Calma – teve a velocidade máxima permitida reduzida. Razera explica que a definição foi baseada em estudos de Probabilidade de Lesão Fatal em Acidentes de Trânsito, que indicaram que a partir de 40 km/h, cresce exponencialmente o risco de lesões fatais por atropelamento. “Se o veículo estiver a 50 km/h, por exemplo, os riscos são de 50% e a partir de 70 km/h, 100%. Logo, a velocidade de 40 km/h foi considerada relativamente segura em termos operacionais e sem prejuízo à fluidez do trânsito”, esclarece.

Os primeiros passos para implantação, entretanto, começaram em 2010, quando Curitiba passou a integrar o Projeto Vida no Trânsito, ação de âmbito mundial que envolve o Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a fundação Bloomberg Philanthropies. “Desde então passamos a realizar estudos mais intensos para atingir a meta e diminuir em 50% o número de mortes no trânsito até 2020”, recorda o diretor.

O objetivo da medida, por outro lado, vai além de reduzir as estatísticas. “Buscamos estimular o convívio pacífico entre todos os usuários e permitir que apreciem a paisagem urbana central a pé, por exemplo”, ressalta. Com 6,3 km de extensão, sendo 3 deles no sentido centro e outros 3,3 no sentido bairro, as vias calmas possuem faixas preferenciais do lado direito da pista, onde carros e bicicletas compartilham o mesmo espaço.

Embora recente, a implantação já produz bons resultados. Até o momento não foi registrada nenhuma vítima fatal na região. Dados do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) mostram que ao longo das três primeiras semanas da implantação foram registrados 28 acidentes nas cinco vias da Área Calma, enquanto que quatro semanas antes, o número chegou a 44, sem vítimas fatais. Até a divulgação do levantamento, em dezembro passado, apenas 0,09% dos veículos que circulam diariamente pela região foram autuados por desrespeito ao novo limite.

Para garantir que o respeito não tenha casos de exceção, foram instalados radares fixos e estáticos nos locais. Quem infringir a norma será penalizado conforme o artigo 218 do Código de Trânsito Brasileiro, que para velocidades superiores à máxima permitida em até 20% considera a infração média; quando superiores entre 20% e 50%, grave; por fim, acima de 50%, gravíssima.

Dados do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran)

  • Celso Alves Mariano

    Velocidade inadequada é um dos mais importantes fatores causadores de acidentes. É tema polêmico por vários motivos, inclusive porque não nos conformamos em conduzir veículos que podem correr muito, sem usufruir deste “prazer”. Reduzir a velocidade máxima é medida impopular, mais por ser incompreendida do que propriamente restritiva, pois, na prática, as velocidades efetivas possíveis já são mesmo muito baixas. Escrevi sobre isso aqui no Portal: http://portaldotransito.com.br/opiniao/transito-e-a-sociedade/velocidades-polemicas/