Publicado em 05 de setembro, 2015 as 16h38.

Psicólogo defende construção de padrão de comportamento no trânsito

Por Mariana Czerwonka.

Comportamento no trânsitoEm entrevista a Agência CNT, Fábio de Cristo falou sobre o livro “Pesquisas sobre Comportamento no Trânsito”

Para colaborar na compreensão dos fatores que influenciam o comportamento de condutores e pedestres no trânsito, e de que forma isso acontece, foi lançado o livro “Pesquisas sobre Comportamento no Trânsito”. Publicada pela editora Casa do Psicólogo, a obra reúne estudos científicos de diversos campos do conhecimento (como engenharia, arquitetura, sociologia e medicina) sobre o tema.

O doutor em psicologia do trânsito, Fábio de Cristo, um dos autores e organizadores do trabalho, concedeu entrevista à Agência CNT de Notícias. Ele falou sobre alguns dos resultados apresentados nos estudos que compõem a publicação. Fábio de Cristo é professor do Uniceub (Centro Universitário de Brasília), pesquisador colaborador da UnB (Universidade de Brasília) e administrador do Portal de Psicologia do Trânsito.

Leia os principais trechos da entrevista.

Qual a abordagem do tema comportamento no trânsito desenvolvida no livro?

O foco está nas implicações práticas dos resultados alcançados pelas pesquisas, para que sejam úteis ao profissional, ao gestor e a quem vai tomar decisões. O público-alvo são estudantes de graduação e pós-graduação, profissionais de psicologia e de outras áreas, o que exigiu da gente um esforço no sentido de possibilitar aos leitores que os conhecimentos fossem transmitidos de maneira acessível e estimulante.

Sob o ponto de vista da psicologia, quais os fatores que influenciam no comportamento de cada indivíduo?

São vários os fatores que influenciam motoristas e pedestres, assim como os demais participantes do trânsito. Nosso desafio é identificar, entre os vários elementos, os que têm preponderância em determinadas situações. É possível destacar algumas características, como as que são da personalidade do indivíduo. Existe a agressividade, algumas pessoas são mais agressivas que outras. As condições físicas, que podem influenciar na sua percepção sobre os outros motoristas, como quando estamos sob efeito de algum medicamento ou droga. O veículo que dirigimos também pode influenciar, dando aquela sensação de poder e segurança, o que, não raro, faz a pessoa adotar comportamentos de maior risco. E a própria situação do trânsito, que pode mudar a dinâmica do indivíduo. Quando interagem, esses elementos influenciam as percepções, os julgamentos e as decisões da pessoa, tenha ela consciência ou não.

Como a configuração do espaço urbano age, no aspecto psicológico, nas condutas que adotamos no trânsito?

Um dos capítulos trata da relação entre o espaço público e o comportamento. Como as características desse ambiente influenciam e, psicologicamente, de que forma isso ocorre. De acordo com a psicologia, o ambiente físico influencia o comportamento e o comportamento influencia o ambiente físico. Assim, é importante que, ao planejar a cidade e as vias, os gestores e as equipes de engenharia estudem, também, os impactos que isso pode ter no indivíduo. O espaço pode propiciar, por exemplo, a percepção de que aquele ambiente é mais estressante ou mais agradável. Estudos demonstram que o fato de você contemplar, na via, ambientes verdes, como árvores e flores, é capaz de influenciar de uma forma mais relaxante para quem está conduzindo e para as pessoas que usufruem da cidade.

O trânsito é um ambiente individualista. Quais as consequências disso?

O trânsito expressa, em parte, o padrão de relações sociais que temos no cotidiano das cidades. Logo, expressará as características que observamos na nossa sociedade, que é cada vez mais centrada na competição predatória e no individualismo ao extremo. Com a finalidade de deslocar-se para atender aos próprios compromissos, não raro as pessoas põem as outras em situação de perigo. Acham que têm mais direito do que o outro, o que pode gerar uma série de consequências, como raiva, agressividade, estresse, e até desencadear um acidente.

Quais as formas possíveis para mudar essa relação?

Temos que construir um novo padrão de comportamento no trânsito. Se ele expressa as características de comportamento de uma coletividade, o contrário também é verdade. Assim, ele também pode influencia-la. Ações feitas em prol de um trânsito mais harmonioso podem ajudar as pessoas a compreenderem a necessidade de mudarem suas condutas. Nesse sentido, não só as autoridades têm um papel importante, mas as pessoas que usufruem da cidade também. Desde que colocamos o pé para fora de casa, estamos influenciando aquele ambiente. Então, discutir o tema nas famílias, nas escolas, nas organizações profissionais e religiosas é algo imperativo para que possamos transformar, juntos, esse cenário de violência no transito.

É a ideia de que gentileza gera gentileza…

O coletivo é, em grande parte, influenciado por reciprocidade. Quando você recebe, em geral, algo gentil, como alguém lhe cede o espaço para passar, é prazeroso. E, muitas vezes, isso faz com que, quando percebemos outra pessoa na mesma situação em que estávamos, a tendência é também darmos aquela oportunidade para ela. A reciprocidade, você sentir que foi ajudado e ajudar, é um elemento que existe na vida social e que pode ser potencializado no trânsito.

Se sabemos dos riscos de certas condutas no trânsito, o que explica continuarmos cometendo infrações?

Um dos capítulos aborda esse tema e sugere que isso acontece com a finalidade de obtermos um benefício circunstancial. A pessoa pode fazer algo errado, apenas em algumas circunstâncias, quando percebe que o benefício é maior que o risco. Para que ela não se sinta culpada por fazer o que sabe que é errado, ela utiliza mecanismos de justificativa para si, a fim de reduzir aquele desconforto psicológico. Um deles é diminuir a importância do erro. Você sabe que está estacionando em uma vaga para pessoas com deficiência ou idosas. Mas diminui a importância quando diz aquela frase: são apenas cinco minutinhos e não vai acontecer nada. Isso diminui o desconforto psicológico subjetivo, mas não neutraliza o problema, objetivamente. Outro mecanismo é culpar o outro pelo seu comportamento errado. Alguns motoristas não param na faixa argumentando que o pedestre é lento ao atravessar a faixa. Ou seja, eu faço errado, mas é porque o outro age assim. Esse fenômeno é chamado de desengajamento moral.

Há capítulos dedicados a pedestres, motociclistas e ciclistas. De que maneira isso é abordado?

O livro busca estudar esses diferentes participantes para entender, em geral, as razões para seu comportamento. Tentando identificar elementos da situação ou do ambiente que fazem com que se comportem de maneira insegura ou arriscada.

O livro finaliza com um capítulo chamado “Avaliação psicológica: problemas e desafios”. O senhor pode resumir quais são os principais?

Os desafios são vários, mas podemos destacar algumas dificuldades enfrentadas no exercício da atividade. Por exemplo, as pressões que o psicólogo do trânsito sofre no seu trabalho para que o tempo de avaliação seja cada vez mais reduzido. Os usuários querem que os exames saiam cada vez mais rápido, assim como os CFCs (Centros de Formação de Condutores) também, porque, após essa etapa, é o CFC que assume o processo. Os Detrans (Departamentos Estaduais de Trânsito) e as clínicas onde os psicólogos trabalham também exercem pressão. Isso pode ter implicações na qualidade do processo. Se você tem menos tempo para ter contato com as pessoas, menos informações você tem sobre elas e maior a possibilidade de cometer falhas. Outro ponto é a tentativa dos candidatos de burlar os exames, buscando testes psicológicos, que são sigilosos e privativos do profissional, na internet, tentando subornar psicólogos para que ensinem a fazer exames. Pelo lado do psicólogo, existe a necessidade de se manter em constante atualização e aperfeiçoamento, para que, ao analisar os testes e instrumentos, possa ter um olhar mais completo a respeito do indivíduo.

Com informações da Agência CNT de Notícias