Publicado em 03 de fevereiro, 2016 as 15h18.

Simuladores: inovação ou ilusão no processo de formação de condutores?

Portal do Trânsito mostra cenário nacional e argumentos de quem é a favor e contra o uso do equipamento

Por Mariana Czerwonka.

Simulador nas autoescolas
Depois de idas e vindas, desde o dia 1° de janeiro deste ano, é obrigatório o uso do simulador de direção veicular nas autoescolas.

Colaboração de Talita Inaba

Depois de idas e vindas, desde o dia 1° de janeiro deste ano, é obrigatório o uso do simulador de direção veicular nas autoescolas para quem vai tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) na Categoria B ou para aqueles que querem adicionar essa categoria à sua CNH.

O uso do aparelho deveria ter se tornado obrigatório em 2013, após as autoescolas terem tido um prazo para adquirir ou alugar o equipamento. Em fevereiro de 2014, donos de autoescolas protestaram nas proximidades do Congresso Nacional contra o uso de simuladores. Em junho de 2014, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) decidiu que o uso do aparelho na formação de novos motoristas seria opcional. No entanto, na data de 15 de julho de 2015, a Resolução 543 tornou obrigatória a utilização de simuladores de direção para a categoria B.

De acordo com essa Resolução, o candidato que for tirar a primeira habilitação terá que fazer, no mínimo, 25 horas de aula prática. Do total, 20 horas em veículo de aprendizagem, sendo quatro horas no período noturno. As demais cinco horas serão feitas no simulador de direção, sendo uma hora com conteúdo noturno. Quem já tem carteira de motorista e vai adicionar a Categoria B deve realizar 20 horas de aula, sendo cinco no simulador.

Até então, somente os estados do Rio Grande do Sul, Acre, Paraíba e Alagoas exigiam as aulas nos simuladores.

Para Maria Cristina Andrade que é Consultora em Educação e Trânsito e ex-Coordenadora-Geral de Qualificação do Fator Humano no Trânsito do Denatran, o simulador veio para aperfeiçoar o processo de primeira habilitação. “O processo de formação de condutores tem passado por inúmeros estudos nos últimos anos e sabemos da necessidade de que seja modificado de uma forma global. O simulador, que é um projeto antigo, bem estudado e desenvolvido, faz com que os alunos tenham um melhor aproveitamento das aulas práticas e isso já está comprovado no Rio Grande do Sul”, explica.

David Duarte Lima, Doutor em Segurança de Trânsito e presidente do Instituto de Segurança no Trânsito, não concorda. Para ele, o simulador está sendo implantado no processo de formação dos condutores com finalidade exclusivamente comercial. “Não há qualquer país que adote esse modelo. Tampouco há qualquer estudo com representatividade sobre o tema. Os estudos existentes são frágeis, com amostras pequenas, sem validade para o Brasil. São experiências de “quase-laboratório”. Em 2015, conversei sobre o tema com mais de uma dezena de especialistas na Espanha, na Holanda, na Bélgica, na França. Alguns deles têm livros dedicados à formação de condutores. Há unanimidade: o simulador é absolutamente dispensável e sua contribuição na formação de condutores é desprezível. Conheço o processo de habilitação no Brasil. Há falhas, porém o simulador contribui apenas para complicar. O impacto sobre a segurança de trânsito será nula”, afirma.

Para o especialista, a melhora no processo de formação de condutores pode seguir outro caminho. “O que precisamos no Brasil é de um método de ensino de “prática de direção”. Uma parte considerável dos instrutores ensina mal. Eles não têm sequência nas atividades de ensino, não têm clareza do processo, não levam a sério sua atividade, avaliam mal o aprendizado do aluno. Para reduzir em cerca de 80% a violência no trânsito, entre outras ações, a Espanha reformulou completamente a formação dos instrutores. A atividade foi valorizada, os instrutores mais bem formados, a fiscalização implementada de forma eficaz. Sem simuladores”.

Em enquete realizada pelo Portal do Trânsito no ano passado, muitos instrutores e proprietários de autoescolas se mostraram resistentes a utilizar o simulador. “Um elefante branco, não tem benefício pedagógico nenhum. Simplesmente estão empurrando mais uma forma de faturar alguns milhões, uma mudança arbitrária onde não foi escutada a opinião de ninguém. Não houve licitação, não há concorrência, e tem até empresa homologada que tem parceria com sindicato de classe”, diz Fernando Moraes, Diretor de Ensino da autoescola G2 de São Paulo.

Quem conhece e já usou o simulador tem opinião contrária. “No Rio Grande do Sul o simulador é obrigatório desde 2014. Acompanhei todo o processo de implantação. O equipamento tem pontos positivos e negativos. Auxilia o aluno no primeiro contato com o veículo, ajuda a entender como um veículo funciona e dá ao futuro condutor algumas noções de circulação em vias urbanas e rurais além de ser um complemento das aulas práticas. Na minha opinião, o simulador ajuda o aluno para as futuras aulas práticas e melhor prepara o futuro condutor. De qualquer forma, são necessários alguns ajustes para tornar essa experiência mais produtiva e eficaz”, afirma Adriano Zanella Girotto, instrutor teórico no CFC Vacaria.

De acordo com Maria Cristina, ajustes já estão em estudo pelo Contran e suas Câmaras Temáticas, inclusive o aumento da carga horária no simulador. “Acreditamos que a regulamentação do simulador passe por atualizações e pode ser até que a carga horária no equipamento seja aumentada. O importante, disso tudo, é que percebemos que quem já implantou o simulador, está satisfeito”, diz.

Mandados de segurança

Alguns Centros de Formação de Condutores têm conseguido na Justiça Federal mandados de segurança que afastam a obrigatoriedade de implementação do simulador. Segundo a decisão, o Contran está extrapolando o seu poder regulamentar, pois não está apenas normatizando procedimentos para aprendizagem, condição determinada pelo Código de Trânsito Brasileiro, mas exigindo infraestrutura física e recursos didático-pedagógicos mínimos.

Para David Duarte Lima, o Contran está desorientado. “Não há consistência nem propósitos nas suas medidas. Se fosse para melhorar a formação do condutor, seria preciso um programa robusto e consistente e não medidas pontuais e, ao meu ver, inconsequentes. Um programa de formação de condutores teria de responder uma série de questões como, por exemplo: quem vai formar os instrutores? Com que material? Quem vai avaliar a formação? Quais serão os critérios? Em quanto tempo? Como serão medidos os resultados sobre os alunos? E por aí vai. O que fez o Contran? Apenas uma medida que obriga os CFCs a gastarem mais, mas sem resultados práticos. Enfim, um simulacro!”, conclui.

 

  • Rodrigo Cunha

    Se é um elefante branco gostaria de saber porque os condutores dos modos aéreo e ferroviário já são submetidos a simuladores e ninguém questionou a eficácia. Inclusive a FETRANSPOR tem um simulador para ônibus. Sem não muda nada, porque comprariam algo que nem obrigados eram?

    • Victorino Barbosa

      Talvez pela maior complexabilidade de direção de tais veículos, e da maior responsabilidade de estar transportando passageiros em massa ou cargas. Se a questão fosse obrigar as auto escolas a possuírem um simulador de caminhões de grande porte ou ônibus valeria a pena pois são veículos que, realmente, pra conduzir é preciso de se obter segurança e acredito que uma pré-noção de comandos e etc como no meio ferroviário
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  • Celso Alves Mariano

    Eu já tive oportunidade de emitir minha opinião, aqui mesmo no Portal (http://portaldotransito.com.br/noticias/instrutor-e-cfc/para-especialista-uso-do-simulador-tera-pouca-eficiencia/). Leiam e comentem!

  • Henrique Rabelo

    – Já que a formação de condutores neste país já é uma piada, com o CONTRAN e DENATRAN legislando arbitrariamente, os instrutores e CFc’s fingindo que ensinam, alunos fingindo que aprendem e examinadores reprovando ou aprovando sem critério definido… Vamos fazer o seguinte: – 30 aulas de simulador e uma aula prática, pronto!

  • Romao Moura

    Simulucros creio que seja apenas isso o foco dessa resolução, não usamos simuladores aqui no ceara ainda, mas na atual situação do nosso pais essa não seria a solução, existem muitos profissionais de transito e creio que o que falta é capacitação para os instrutores e interesse dos próprios em passar realmente um aprendizado descente para os candidatos a CNH, de nada adianta o aluno ir para o simulador se quando chegar na pratica voltará a estaca “zero” com alguns “profissionais”. Vamos capacitar nossos profissionais, valorizar a profissao que a vontade de ensinar de verdade surgirá.

  • Luiz Nunes

    Na minha opniao o simulador é muito favorável aos alunos principalmente idosos ou aqueles que não tem mínima noção do que é um câmbio, embreagem, acelerador e outros componentes. Sim ele ajudará aos alunos saber o que são esses componentes do carro e como usar na hora certa, agora a sensibilidade de sentir a embreagem, o freio e etc, creio que não vai ser eficaz por ser outra realidade, essa sensibilidade o aluno só vai adiquirir na prática com o veículo. Só acho que o governo tinha que colaborar com as auto escolas a adiquirirem esse equipamento com mais facilidade.

    • Victorino Barbosa

      Pela realidade ser outra, não será eficaz a obrigatoriedade do simulador. Como você mesmo disse, a sensibilidade o aluno só vai adquirir na prática com o veículo, então, por que adiar essa prática? Só irá encarecer o serviço aos aspirantes a condutores, retardar a aquisição da prática e acredito que, posteriormente, implicará na falta de habilidade no momento da prova de direção.